Figueira da Foz, 31 de novembro de 2017 –
Sentimento…
Estou sonolenta. Tenho tido grandes dúvidas existenciais. Não sei nada da vida, não sei como viver, mas hei de lá chegar.
Penso que estou febril. Tenho febre de conhecimento, estou cansada de viver. Sinto-me alheia a tudo. Já antes este sentimento tomou conta da minha consciência.
A primeira vez que isso aconteceu, lembro-me bem, foi no estrangeiro, naquela grande viagem que me cativa ainda na memória. Estava, talvez, stressada com o jet lag da coisa e fiquei desorientada com tudo o que se estava a passar. Sentia-me longe, perdida no incrível, mas, ao mesmo tempo, estava consciente do que fazia. É difícil de explicar.
Na verdade, o mundo exterior parece igual, mas o meu interior, em contacto com o meio, parece retrair-se, desvanecer-se em mil e uma irrealidades irrealizáveis. É deixar de pertencer ao corpo, ver-me a mim mesma a tomar consciência do que é o mundo em que vivo.
É um processo demorado, mas que se sente de imediato. E já voltei a senti-lo, em situações inoportunas, mas ainda não aprendi como reagir, nem cheguei a superá-lo… talvez aprenda Contigo.
Estou em transe.
… musical
No entanto, algo me fez despertar.
Automaticamente, ao ouvir um habitual sonido, dei comigo a divagar em melodias, em… música.
O que é a Música senão uma tentativa… emotiva de expor o que vai na alma, inocente da magnitude da beleza que desperta, simples do pensamento que se revela de duvidoso sentido, que inspira raciocínios de inatingível esplendor…?
Música clássica, expressão do sentimento impossível, daquilo que não é possível descrever porque ainda não há palavras que o definam e que possam realmente demonstrar o que provoca.
Surgem diante de mim orquestras, em mil e um trabalhos para pôr a peça a funcionar, para atingir alguma da perfeição pautada pelo organizador de tudo, o compositor, e para seguir, à letra, o maestro.
Afinal, quem “inventou” a música? O intelecto humano? Poder descobrir tal realidade, ser capaz de criar – ou apenas de inspirar a criar – o que mais ninguém, e também toda a gente, compreende…
Mas não.
Nada mais existe, nada mais há a dizer.
Sofia Rainho


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