Figueira da Foz, 6 de dezembro de 2017 –
Eu tinha quinze anos. Quinze anos completos, é certo, mas quinze anos frágeis e emocionais, inconscientes. Já viajara meio mundo de avião, estava a habituar-me a uma cultura nova, a descobrir aquele que é um mundo novo de espírito uno e de fraternidade escutista, e, apesar de desorientada pelas novidades, estava certa acerca das minhas convicções e dos meus pensamentos.
É certo que esperámos alguns instantes antes de entrar naquele que seria o lugar onde abriria os olhos para o mundo cruel que se nos depara quando tomamos consciência das atrocidades infligidas nos que perdem… Nada me prepararia para o que iria ver e sentir nos momentos seguintes, exceto, talvez, os diversos papéis de programas e panfletos sobre o local; a verdade é que não havia tempo para os ler a todos, na correria que há em eventos coletivos complexos como este. Nesse intervalo de espera relembrei aquilo que já sabia sobre aquela cidade.
Estudara há bem pouco tempo o que aí ocorrera e a minha (in)consciência era capaz de admitir que a viagem que estava prestes a começar pouco influenciaria o meu discernimento. Afinal de contas, era só a consequência de uma guerra mal acabada, gerada por um resquício de resistência, apesar de se tornar numa calamidade humanitária.
Ao entrar no Museu Memorial de Hiroshima, eu não estava ciente do que iria encontrar.
Consigo ainda relembrar as fotografias, as estátuas que reproduziam pessoas a derreter, algumas peças de roupa e objetos que sobreviveram à destruição quase total que atacou o centro da cidade e se prolongou à sua volta, como um terramoto ou qualquer outro desastre natural, apanhando todos desprevenidos. Porquê?
Crianças, idosos, homens, mulheres morreram com esta explosão. Inúmeros testemunhos dão-nos conta da desgraça que se deu naquele sítio, menos de um século passado sobre o acontecimento. Incontáveis vidas as que ficaram sem futuro. Sofrimento… o quanto devem ter sofrido estas pessoas, com mortes dolorosas, privadas de dignidade. E a única salvação dos sobreviventes destroçados foi ter esperança, esperança de conseguir continuar, lutar até ao fim e sobreviver.
Lembro-me de uma menina que, seguindo uma superstição nipónica, dobrou mais de mil “paper cranes” – criaturas em origami – para pedir um desejo: viver.
Justamente para provar a sua perseverante capacidade de recuperação, a nação japonesa de novo ergueu a cidade e todo o mundo pode recordar que “nada se perde, tudo se transforma”.
Após a verdadeira reviravolta nos meus pensamentos, que foi tomando consciência no decorrer da minha existência, apenas posso compreender uma realidade: os fins não justificam os meios.
Agora cabe a nós, gerações vindouras, ter a perceção daquilo que aconteceu; que o destino nunca nos arraste e que os erros do passado possam ensinar a criar um futuro melhor.
Sofia Rainho
(publicado em “Acrobacias com Palavras” – publicação da Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho – de 2017/18, e na Revista Alegre – edição nº11, março de 2019)
