Porto, 12 de dezembro de 2018 –
À tarde
Antes de almoçar, tomo consciência daquilo que vou deixar para trás. Eterna diversão, risadas abafadas e momentos perdidos. Mas o tempo não estica, e “há prioridades”. Ainda penso: “será que vale a pena?”, mas já me decidi e não quero causar problemas. Deixo a comunidade entregue às suas obrigações e dedico-me a tirar o pó das cadeiras da biblioteca.
Trabalho afincadamente, sem saber exatamente para quê. O que interessa na vida são as pessoas, que faço eu fechada numa sala sem falar com aqueles que me rodeiam? Por que não os conheço?
Quando estou cansada, tudo faz sentido; mas, para o mundo cruel do exterior nem tudo o que faço sentido faz. Ainda assim, reconheço que são as casualidades, como um sorriso, uma carícia, um piscar de olho, um “Olá!” aleatório, que apimentam os dissabores do dia-a-dia, tornando possível uma cumplicidade com pessoas, que, de imediato, no nosso mundo, se tornam humanos dignos de referência.
O convívio chama-me da forma mais inesperada: ele aparece esbaforido da longa corrida e desenfreada procura que o trouxe até mim. Sorrio. Pede-me que abandone as quatro paredes e parta para a aventura. Como posso recusar? Agora sei que se lembraram de mim, e isso enche de ternura o meu coração.
Chego e saúdo os meus companheiros. Simbolizo um presente de confiança e isso traz-me mais alegria do que aquela que consigo suportar. Quando pedem que me entregue a todo um grupo que me acolhe, faço-o sem hesitar. Toca-me o olhar dos que me acompanham, e eu toco no deles. Cheiro o humanismo que paira no ar. A minha alma anima-se. Somos um, de novo.
Aprendo que todo o impossível é possível. Recupero a identidade. Já sentia a falta do simbolismo que está representado em pequenos grandes objetos…
De noite
Volto ao mundo real. Transpiro nervosismo. O que faço? Perco-me, de novo, na biblioteca, mas não consigo terminar o trabalho antes de que encerre. Fecho-me na casa de banho, computador no colo. Quem me vir agora pensa que enlouqueci!
Como vou imprimir? Tento aceder a uma fotocopiadora aleatória, sem sucesso, e, no entretanto, perco a carteira. O stress afoga-me e volto ao WC. Encontro umas chaves de algum carro, e procuro alguém que me ajude. Apesar de perturbar uma aula, consigo entregá-las e recuperar os meus bens.
Os meus tios esperam-me. Desisto. Estou preocupada: não consegui imprimir, quanto mais entregar o trabalho. Chove. Os meus olhos perdem-se na escuridão e a minha mente vagueia nas memórias deste dia… “O prazo é até à meia-noite”… “Não se dá o braço a torcer”… “Não há impossíveis”… “Consegue-se sempre dar aquele +1%”…
Volto costas ao Fado e começo a correr que nem uma maluca. “Eu consigo!”… “Só mais um esforço”…
Chego à faculdade e encontro uma alma caridosa, que me atende com toda a atenção possível, e… faço acontecer. Quem estivesse a observar-me atentamente diria que andava perdida (e, efetivamente, perdi-me) ou a treinar para uma maratona. Ando numa roda viva entre enviar o documento, mandar imprimi-lo (raios, não tenho o cartão carregado!), voltar a enviar o documento, e… consigo imprimir! Não quero nem consigo evitar abraçar quem me acompanhou no drama, quem testemunhou a minha vitória!
Fico até às 20h30 na FLUP. Por quê? O tempo é precioso, mas é darmos mais do que o impossível que nos torna irracionalmente vivos. É por isso que tudo vale, sempre, a pena. Dar é receber.
Chego a casa encharcada, e tomo banho. Sinto a terra esquecer o meu corpo e penso naquilo que dá ânimo ao espectro de circunstâncias que colorem a vida.
Pela manhã
Acordo estremunhada. Penso na noite que passou. Recuperei algum do sono, embora já esteja cansada de viver. Ainda estou quente quando abraço a minha tia e lhe atiro um “Bom dia!”. Se há coisa que gosto é de comunicar, seja como for.
Como à pressa porque quero apanhar o autocarro das 7h35, mas já não chego a tempo: eis que vejo a paragem… e o autocarro arranca à minha frente. Espero pelo próximo – parece que se está a tornar habitual – e reflito. O que aconteceu ontem?
Ontem, de manhã, sabia que tinha que entregar um trabalho e estudar para os três testes que vou ter nos próximos três dias. Mas mal terminei o trabalho, quanto mais tive tempo para estudar…
Sei que me comprometi, mas nem sempre posso estar com os meus amigos morcegos. De cada vez que saio da sua companhia não deixo de pensar em como a vida é bela porque é partilhada.
Sorrio. Mas é um sorriso em que se vai denotando uma deceção tremenda pela responsabilidade que é em mim depositada e que nem sempre honro. Ontem, contudo, fiz o melhor que pude, e descurei as prioridades que devo ter em mente.
Apanho o autocarro com a garantia de que tenho lugar na sala se me atrasar demasiado. É o que dá, quando, logo nas primeiras semanas, quase que somos obrigados a conviver… até que essa obrigação se torna uma necessidade… e só nos resta agradecer aos morcegos pela descoberta do mundo, porque, daí para a frente, conseguimos (con)viver em família. É um só vício.
Sofia Rainho



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