Marchama

Figueira da Foz, 22 de junho de 2019 –

Hoje, o mar está de um sereno e reconfortante azul. Voltei a casa, ao meu lar. Voltou o verão e a praia, o sol e calor. E tudo mais que isso implica: rebentar bolhas, perder o Norte e a paciência, deixar para trás toda uma zona suave e chamativa.

Quero fugir, mais que nunca. Sempre senti o chamamento da caminhada, que me impediu de estar parada; mas, agora, ele é mais forte e difícil de resistir. Uma janela aberta, uma onda selvagem, um precipício sem início. O passado brinca.

Foi no início do Caminho que te conheci. Corpulento, sorridente e despachado, a tua presença marcava, sem dúvidas, quem te conhecesse. E voltei a ver-te, sentindo a honra de contigo estar de novo. Tantos risos trocados, olhares partilhados e, claro, tanto suor e lágrimas, ambos chegados a Santiago. E, mais importante, os abraços. Foste boa parte da força que nos manteve unidos naquela aventura. Companheiro inigualável, a tua imagem irá sempre encher a minha alma.

Quando recebi este caderno, a dor estava fresca. Bastava a menção do teu nome e os olhos marejavam, as pernas fraquejavam, o queixo tremia. Sentia-me fora de mim, observando o mundo pela primeira vez; a minha mente regada por este pressentimento de um final de um ciclo, o da vida.

De que vale aprender se o faço sozinha? De que vale estar se estiver sem mais ninguém? De que vale sorrir se não estás neste mundo? Era tão ingénua ao pensar que a perspetiva de desaparecer nada mudaria, quando, na verdade, a visão entorpece a alma de cada vez que me lembro do que te ocorreu…

Ela me atrai, sei que a procuro todos os dias desde que soube da tua. Nunca mais, desde esse momento, teve sentido esperar pelo rio a descer do vale até à foz. Não ganhou sentido, mas tornou-se real. Porque a ferida não vai sarar facilmente. Quem sabe se alguma vez sarará sequer…

Chamas-me, mas não quero que mais ninguém sofra aquilo que sinto. Entrou na minha cabeça o maior mistério da vida. A minha curiosidade não é pouca, mas respeito a tua decisão; apesar de tudo, é corajosa (mais do que temo alguma vez ser), urge-me a estar atenta, a preocupar-me, a comunicar, não deixando sentimentos por expressar, pensamentos por escrever ou vontades por dizer, e a confiar.

Durmo acordada. Sinto-me, enfim, humana. Por fim, todo o ambiente que transborda de tensão acumulada deixa de me sufocar. Perdi-te e não te vou voltar a achar. Não nesta vida. E não espero pela próxima.

Sofia Rainho

Família