Ser vívido

Tábua, 28 de agosto de 2019 –

O vento, do alto da serra, despenteia-lhe os cabelos. A luz do sol brilha através dos parcos ramos de pinheiro que se enraízam ribanceira abaixo. E ela vive rindo-se de espirros de cães. Mas nada disto é primário, senão para terceiro – talvez até quarto – nível.

Sevilha está povoada de tendas e o rio, que separa a margem em que ela escreve da dos pedregulhos, está vividamente fervilhando de entusiasmo pela aventura de conhecer novas gentes e pelo misticismo causado pelo isolamento. E ela sente-se livre.

Cheira o vento que lhe arrepia os finos braços e sente a diferença de odores. A frescura, a autenticidade (quase que disfarçada) e a beleza da tentativa de misturar o urbano num meio natural.

Necessita escrever. Porque ouve passos que não vê, vê sinais que não lhe chegam e porque lhe chega agora o gosto por sentir o valor da solidão – não o quer perder. E porque todas estas palavras estavam destinadas a serem vivas.

Sofia Rainho

Custou-lhe caro, o chapéu.

Stars

agosto de 2019

– A formiga procurou um ninho! – exclamou, ao ser ofuscada pela luz.

Aqui, sentada no meio da escuridão (claramente, mas unilateralmente), luminosa, ela observa a lua. Uma lua de Saturno, cujos anéis atormentam. O desgaste leva-a a pensar que o café, não lhe tirando o sono, lhe retira a sanidade.

Mais do que uma dúzia de homens musculados, sem bonés nem protetor solar, mostram-se sempre atarefados, jamais fatigados. Mas o sol não engana.

Passos apressados, poeira que faz espirrar, asneiras que causam um furacão psicologicamente sensível e questões demasiado complicadas para serem esclarecidas. E um – ou dois? – dedos machucados. Mas uma liberdade infinita, a que cheira.

Transborda a dor – dos pés, dos dedos, da garganta e do nariz – e soma-se o transtorno do ânimo, da alma. Será que as pessoas mudam? Eu acho que não. Mas quem sou eu senão um empecilho? Será que arranjo soluções?

Preciso de ajuda – do Caminho.

Sofia Rainho

Estrelas obscuras

Moca do café

Portimão, 2 de agosto de 2019 –

Já trabalho há três dias quase sem parar. Hoje, finalmente e, claro, por necessidade, experimentei café. Cheirei, senti o ardor do amargo odor da bebida e deixei-a escaldar na língua, o que não tornou a ação mais confortável. Passadas algumas horas, bebi mais a sério e soube-me a vício.

Não escrevo há bastante tempo e isso afeta-me. De vez em quando, penso em como quero ser escritora mas, depois, a febre arrefece e penso em seguir carreira no desporto ou em gestão de eventos – há tantas possibilidades…

Acredito mesmo que ela me queira ajudar e sinto que somos mais parecidas do que ela mostra que pensa. Não sei bem o que pensar sobre isso.

Preciso de tempo para rezar, para refletir, para deixar de ser egoísta. Olhos pesados, garganta inflamada, pés cansados e sorriso desgastado. Nem consigo, como habitual, imaginar a minha imagem. Deve ser mesmo má.

O que mais preciso é de empatia, de noção, de ação e reação.

Sofia Rainho

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