Olhai

janeiro de 2020 –

Basta um olhar para me deter.
Basta um sorriso para me afastar.
Basta um gesto para parar.
Basta uma palavra para enrubescer.
Pensas em mim?
Chove e eu choro por dentro.
Queremos sempre aquilo que não temos.
Nem sempre? Muitas vezes? Não.

Nem te vejo
Vejo teus olhos apenas,
Teu cabelo moreno, loiro talvez,
Teus ternos lábios,
Tuas mãos frias, como fria queres ser,
Mas vejo que não és. Porquê?
Se morrer com estes sentimentos, morri entalada.

Mas miro ao futuro.
E o olhar fica perdido no passado.

Sofia Rainho

Mirai!

Januar

Figueira da Foz, janeiro de 2020

Começo com a certeza de que a escrita será proveitosa. Aqui me refugio, me sinto segura e livremente comprometida.

És minha fonte de inspiração, de devaneio e de refúgio. À noite, antes de fechar os olhos, sorrio porque o acaso me assegura de que estarás comigo uma noite mais, de que nos meus sonhos te posso voltar a encontrar.

Tenho saudades de sentir as tuas mãos, gélidas e suaves como naquele dia de outono em que esperávamos pelo autocarro, a sós, na paragem. Quero voltar a ver os teus olhos olhando os meus, ouvir-te chamar por mim, pedires-me que fique, que te acompanhe, que esteja contigo, que fique a teu lado.

E, apesar de nunca o ter pronunciado, nem planear pronunciá-lo num futuro próximo, escrever estas palavras ajuda-me a soltar os sentimentos, desafia-me a admiti-los, a organizá-los e a saber que a esperança ainda latente em mim é fruto de ilusões e jogos de luz, de ludibriações que me ensinam filmes e séries e livros e nada da vida real. Nós somos reais. Mas e se este amor for pura imaginação? Falar contigo vai mudar alguma coisa?

Tenho necessidade de escrever. É uma ânsia que se iguala à de viver, apenas tem menos ímpeto, mas igual bravura. Ainda assim, as palavras surgem-se-me ocas, vazias, destronadas de significado e enredo, sem qualquer consideração. Esforço-me por fazer delas obra, aperfeiçoá-las, medi-las, contar o seu valor, mas escapam-se-me por entre dedos incertos. As palavras deveriam ser as minhas melhores amigas! Eternas sujeito poético, é a elas que dedico a minha eterna perdição…

Sofia Rainho

Torre dos Clérigos a 20 de janeiro de 2020