Opposites attract

Porto, 20 de janeiro de 2020 –

Antes, quando eu pensava que a área metropolitana correspondia à área ocupada pelo metro – como meio de transporte – de determinada cidade, não precisava de jogar jogos de arcada no meu smartphone às tantas da noite, com medo do silêncio, para me lembrar que, de facto, existes (para me atormentar). Porque não me respondes? Desenvolvo todo um filme na minha cabeça, um filme deprimente, sem fim, sem início, sem fio condutor…

Agora que admiro a humildade da beleza humana, quero mais que nunca e tenho mesmo uma necessidade de amar, de querer e de precisar de alguém. E preciso de ti.

Não quero morrer sem te dizer que te amo. Por muito que o tente negar, importas mais para mim do que devias. Não sei se é porque me abriste as portas tão rápida e facilmente ou porque tens um charme inigualável; de todas formas, por mais que tente, esquecer-te é tarefa impossível.

Anseio pelo dia em que não te queira beijar… desde aquele momento em que me apercebi, naquela noite fria em que nos via a tornarmo-nos numa família adorável.

Parece-me que me dás inspiração para (sobre)viver quando, na verdade, quando tento escrever ou refletir sobre ti, apenas suspiro e penso naquilo que não fiz.

Quando sei que te aproximas, transformo a minha surpresa de me reconheceres pela surpresa de te ver, porque de cada vez que nos encontramos, sinto-me diferente e com intenções distintas. Atormentas a minha existência depressiva e solitária. Desafias os meus dias apagados e melancólicos.

Se me tornas melhor? Pelo menos contigo sinto-me melhor. E é tudo o que preciso.

Sofia Rainho

Lisboa, vista de Almada (Comboio do Conhecimento)

Debaixo da mesma Lua

Porto, 20 de janeiro de 2020 –

Todos aqueles que perdi – porque conheci e deste mundo se foram – em mim deixaram marcas profundas. Todos me perseguem nas horas mais sombrias da minha existência, seja por um olhar, por uma referência perdida ou por um comentário descurado.

Nesses momentos, sinto saudades de segurar naquela mão suada de quem, nessa hora, tinha um objetivo final, uma meta a atingir: Santiago de Compostela. Aquele santuário cuja oração é a própria viagem e a chegada culmina em todo um caminho percorrido. Esperei demasiados anos para não o fazer e aproveitei a experiência ao máximo, mas nunca esperei conhecer alguém me faria sentir tanta dor e que, depois de partir, aprendi a admirar.

As decisões que ele tomou deixaram-me sem fôlego para viver sossegadamente e cortam-me ainda hoje a respiração. Aquela noite em que soube quis tanto gritar, expelir por qualquer forma aquela frustração e um luto que nunca havia sentido. Foi aí que a minha vida descarrilou, quis sentir o mar, quis que ele me chamasse para junto de si, quis desistir dos planos que sabia frutíferos, quis abandonar qualquer alento que sentisse por batalhas destravadas. Agora, escrevendo isto, quero apenas que esse mar pare de se manifestar nos meus olhos, qual chuva escoando por entre escombros.

Os olhos dela disseram-me tudo. Nunca falámos, mas também nenhuma de nós precisou de o fazer. Estivemos juntas uma semana, depois ela foi e eu fiquei. Fiz-lhe um barco de papel e, na esperança de que nem sequer reparasse em mim, coloquei a seu lado enquanto não olhava, como símbolo da relação e empatia que sentia existir. E ela sabia quem eu era. Vejo agora como tinha uma alma sofrida, irremediavelmente perdida – que poderia ter sido achada? – e que, de novo, a minha presença em nada melhorou a sua existência.

Por favor, perdoem-me.

Sofia Rainho

Luar de janeiro