Luxemburgo, 25 de maio de 2025 –
— Um amigo meu faleceu. Fui ao velório na quinta-feira — disse ela, finalmente.
— Os meus sentimentos! — respondeu alguém. — Eram muito próximos?
Ela pensou em cada acorde que ele lhe ensinou. Nos acampamentos de jovens que ele organizou. Nas pessoas que ele tocou com aquele olhar acolhedor e mãos abertas para ajudar. Sempre com amor pelo trabalho bem feito.
— Não muito. Ele estava doente, mas todos estavam à espera que ficasse bom.
A conversa foi fluindo, embora parando por vezes. Sentadas na relva molhada, ao frio, as duas acabaram por se deitar a observar as estrelas. O céu estava limpo. As estrelas brilhavam, lá do alto, iluminando o nervosismo deste encontro de almas. Por muitas noites, ela relembrá-lo-á assim. Algum dia destes, alguém recordará talvez outros pormenores, outros lugares, outras pessoas. Ela recorda-o assim, tal como está gravado e perdido nos confins da memória de ninguém.
— Faz-me pensar noutro amigo meu, que decidiu tirar a própria vida. Eles conheciam-se.
Ela seguiu a explicar as inseguranças que tem com a escuridão da morte. Muitos jovens que se suicidam. A própria família dela, que ela nunca chegou a conhecer, são coisas que a inquietam. Não sabe bem explicar como se sente, mesmo quando alguém pergunta como surgem estes pensamentos e se não é tudo uma grande confusão.
— Sabes, às vezes sinto-me atraída por ti — acabou por admitir alguém.
Ela ficou sem saber o que dizer. Foi tudo o que ela quis ouvir durante meses a fio, para contrariar aquelas vozinhas lá no fundo do ser que sempre lhe murmuravam: “Claro que alguém nunca poderia gostar de ti, idiota! És uma pessoa horrível, nem cozinhar sabes, tens medo até de conduzir!” e por aí fora. Agora, neste momento tão decisivo, o que dizer?
Aproximou-se e contou-lhe tudo. Como nunca tinha sentido tantos sentimentos ao mesmo tempo. Tanto medo e tanta fúria. Contou-lhe como imaginava que algum dia esta hora chegasse, para poder dizer o que realmente sentia. Alguém permaneceu pensativa durante algum tempo e começou a fumar outro cigarro.
— Queres provar? — perguntou.
— Eu nunca fumei…
Alguém encolheu os ombros.
Depois de inalar, tossir e acabar a rir-se às gargalhadas, ela olhou alguém nos olhos.
— Está muito frio aqui. Vamos subindo?
E subiram.
Sofia Rainho