Palermo, 11 de maio de 2026 –
Amo histórias e amo livros. Mas às vezes não quero ler.
O que custa é começar. Porque antes de começar há aquele sentimento. E se entro demasiado na narrativa? E se me perco e não encontro o caminho de volta? E se ignoro a minha vida e passo o meu tempo entrando noutro tempo, usando tempo que não tenho?
E, demasiadas vezes, esse sentimento é demasiado grande. Tolda a visão e o coração e é substituído por ecrãs que afastam o aborrecimento. Mas será que os ecrãs fazem isso mesmo, ou apenas criam essa ilusão?
Por outro lado, é tão libertador quando se acaba um livro mesmo bom e se fica completamente sem chão, sem maturidade emocional que aguente as lágrimas que por dentro da alma desbordam em rios. É o luto pelo peso das palavras que nos fazem transpirar profundamente. Ainda está por ser descoberta a forma de arte incapaz de transpor emoção – seja literatura, música, cinema, dança, ou enfim todas as expressões humanas que nos tornam menores e maiores ao mesmo tempo…
Ler um livro novo é como esperar na borda da passadeira a que o semáforo passe de vermelho a verde.
Para começar, se o fizerdes em certos lugares do mundo, mais vale ignorar os sinais e simplesmente atravessar a estrada, enquanto que noutros é socialmente importante mostrar que se seguem as regras…
Quando estamos absortos noutras atividades, perdemos a oportunidade de atravessar a estrada no período de tempo designado para tal. Ou, às vezes, quando a espera demora muito tempo, desistimos e encontramos outro caminho melhor, ao invés de ter que atravessar essa estrada. É preciso esperar a que a maturidade emocional chegue na altura correta para atravessar com confiança, para empatizar com a sensibilidade da história.
Quando chegamos ao outro lado, podemos continuar em frente, olhar para trás, ver e refletir onde estávamos e como estamos agora. Na maioria das vezes, não nos lembramos do caminho que percorremos, mas sim de como começámos e acabámos. E, durante a travessia, estamos expectantes por chegar – não pertencemos realmente a um lado ou outro, mas sim a um limbo, a um entre, um antes ansioso e um depois que ansiamos alcançar.
Somos como peões de uma dinâmica maior que nós, à espera que algo nos afete. Na vida, como na literatura. É aqui que repousa a magia do viver: na incessante busca do depois. Algo que na verdade nunca pousa, mas que está, como um animal selvagem, constantemente em movimento.
Sofia Rainho