Búsqueda incesante

Mondego, 28 de junho de 2026 –

El sol me hace recordar tus dedos acariciando mi piel, justo ayer, ahí, junto a ese mar sin olas.

El viento me hace recordar la fuerza que me llega cuando pienso en ese beso, aquel que todavía no nos dimos y que no sé si algún día voy a merecer.

Y las hojas, las flores, el verde de la naturaleza me hace recordar tu belleza, tu sencillez, tu alma pura… y te extraño… y aunque no sepa que hacer con esto, sé que todo va a estar bien.

Sofia Rainho

An die Freude ?

Palermo, 13 de junho de 2026 –

Querida Sam,

Estamos já a meio de junho e sinto que não fiz nada. Em termos pessoais, estou bem. Sinto-me bem a viver com os meus amigos e sei que vou sentir muito a falta deles no futuro.

Tenho que procurar trabalho, mas a pressão de o fazer faz-me repensar o que quero mesmo fazer. Sou nova e nada me prende a um lugar. Mas e se eu quiser que algo me prenda? Sabes, ter mais alguém parece um bom empreendimento futuro.

E, no entanto, tenho que me focar no presente. Acho que é esse o meu problema atual. Vivo no passado ou no futuro porque enfrentar tudo o que sinto no presente é, neste momento, demasiado assustador. Vivo nos momentos que passei no Luxemburgo ou em Mainz, nos dias em que tinha rotinas mais estruturadas. E, mesmo assim, sei que, nessas alturas, não tinha assim tanta estrutura como agora. Alguma vez senti realmente o que é ter uma rotina? Porque sinto que, quando realmente a tive, procurei sempre afastar-me dela.

E será que vou acabar sozinha? E será que isso é assim tão mau? Por que não consigo concentrar-me? Tenho os olhos tão cansados…

Questiono-me se conseguirei acabar estes dois mestrados. Sinto simultaneamente indiferença e preocupação – se é que isso é possível. Sinto um aperto de vergonha e desapontamento. Pois tenho evitado pensar nisso, e porque, quando nisso penso, me sinto insignificante – como se não pudesse mudar nada relativamente a isso… Mas eu posso mudar – se ou quando arranjar as forças necessárias para tal.

Tenho que me lembrar mais vezes: não interessa tanto aquilo que acontece quanto a forma como se reage àquilo que acontece. É fácil dizê-lo, mais difícil é senti-lo. Por que dói tanto viver?

Beijinhos da tua,

Sofia Rainho

Cor de mar

Palermo, 2-5 de junho de 2026 –

Querida Sam,

Estou a delirar. Não como, não durmo, só penso. Não estou presente. Alheio-me.

São quatro da manhã e sigo acordada. Penso naquilo que me faz feliz e penso que, neste momento, preciso de pouco. Basta uma mirada. Um olhar daqueles olhos cor de mar, transparentes como o Mediterrâneo, um olhar que me come… Tudo faço para não sonhar senão acordada. Porque ao menos aí posso policiar o que sinto. Não ter demasiadas expetativas.

Depois da Eurovisão, o meu mundo desmoronou-se. O meu conhecimento do mundo está sempre a crescer. É muito difícil explicar a quem não seja fã e nunca tenha estado nos espetáculos ao vivo aquilo que é e o que lá se sente. Partilhar esta experiência com alguém torna-vos mais próximos – quase como uma família que escolhemos. E é por isso que a minha experiência este ano se tornou demasiado polémica para mim mesma.

Quando voltei, decidi não ficar indiferente ao sofrimento. Desapaixonei-me pela humanidade, cercando-me de documentários históricos e conversas de ódio. As notícias do mundo inquietaram-me muito. O meu algoritmo do Instagram perdeu a fé no humanismo. Há tanto ainda por fazer no mundo. Se existe um Deus, porque será que ele continua sem revelar-se a tantos de nós?

Senti-me tão sozinha que decidi buscar no vácuo das nuvens alguma resposta. Entretanto, alguém ouviu e respondeu. Alguém me chamou do vazio para ir dar um mergulho e voltar à minha realidade. Nunca pensei realmente que me voltaria a sentir assim.

Sou uma buscadora compulsiva de obsessões amorosas. Será que ela também pensa em mim? Não quero contar as vezes que já reli as conversas porque não quero contar as vezes que me envia um abraço. Tenho vindo a recebê-los desde que nos conhecemos. Aqui, no meu corpo quente e sedento, cheio de fome.

Quando sabes, sabes. Em três dias já chorei por três meses. Nunca pensei voltar a sentir este fogo na barriga desta forma tão intensa. Afinal é possível…? Nunca me senti tão humana. Ou talvez já tenha passado demasiado tempo desde a última vez… Se não fosse esse toque, quem sabe a diferença que faria. Não sei como vou aguentar uma semana sem a ver.

Da tua,

Sofia Rainho