Palavras que ficaram por dizer… e por escrever

Figueira da Foz, 30 de junho de 2018 –

Querida Xxxxx,

Foste a primeira pessoa por quem verdadeiramente me apaixonei… perdidamente. Perdi-me na tua beleza, na tua simplicidade, na imagem que criei da tua essência, no teu aroma, no teu so(n)riso, no teu charme.

Gostava de ter tido a coragem de te conhecer de verdade. Só temos uma vida e ela é demasiado curta.

Escrevo-te porque tenho medo dos meus sentimentos, daquilo que em mim despertastes e sinto que devo partilhá-lo neste momento em que desejo fugir deste mundo e embarcar numa nova aventura. Não escolhemos quem amamos, apenas quem deixamos para trás.

Posso até ser estranha e, apesar do que muitos pensam, todos temos os nossos problemas. Gosto de basear-me no gosto pela diferença.

Contigo e, apesar de não te aperceberes de tal, descobri que o sentido da vida são os momentos que criamos com seres vivos, e que as nossas escolhas influenciam o significado que atribuímos aos nossos sentidos.

Eu quero apenas mudar o mundo e sei que é com as pessoas que amamos ao nosso lado que é possível arrancar para um futuro maravilhoso.

Gostava de nunca te perder (apesar de nunca te ter encontrado).

Amo-te. Desculpa. Obrigada. Sê feliz!

Da tua medíocre admiradora secreta,

Sofia

PS – Ainda estou a tremer…

Citação de Albus Dumbledore (J.K. Rowling)

Despertar

Figueira da Foz, 6 de dezembro de 2017 –

Eu tinha quinze anos. Quinze anos completos, é certo, mas quinze anos frágeis e emocionais, inconscientes. Já viajara meio mundo de avião, estava a habituar-me a uma cultura nova, a descobrir aquele que é um mundo novo de espírito uno e de fraternidade escutista, e, apesar de desorientada pelas novidades, estava certa acerca das minhas convicções e dos meus pensamentos.

É certo que esperámos alguns instantes antes de entrar naquele que seria o lugar onde abriria os olhos para o mundo cruel que se nos depara quando tomamos consciência das atrocidades infligidas nos que perdem… Nada me prepararia para o que iria ver e sentir nos momentos seguintes, exceto, talvez, os diversos papéis de programas e panfletos sobre o local; a verdade é que não havia tempo para os ler a todos, na correria que há em eventos coletivos complexos como este. Nesse intervalo de espera relembrei aquilo que já sabia sobre aquela cidade.

Estudara há bem pouco tempo o que aí ocorrera e a minha (in)consciência era capaz de admitir que a viagem que estava prestes a começar pouco influenciaria o meu discernimento. Afinal de contas, era só a consequência de uma guerra mal acabada, gerada por um resquício de resistência, apesar de se tornar numa calamidade humanitária.

Ao entrar no Museu Memorial de Hiroshima, eu não estava ciente do que iria encontrar.

Consigo ainda relembrar as fotografias, as estátuas que reproduziam pessoas a derreter, algumas peças de roupa e objetos que sobreviveram à destruição quase total que atacou o centro da cidade e se prolongou à sua volta, como um terramoto ou qualquer outro desastre natural, apanhando todos desprevenidos. Porquê?

Crianças, idosos, homens, mulheres morreram com esta explosão. Inúmeros testemunhos dão-nos conta da desgraça que se deu naquele sítio, menos de um século passado sobre o acontecimento. Incontáveis vidas as que ficaram sem futuro. Sofrimento… o quanto devem ter sofrido estas pessoas, com mortes dolorosas, privadas de dignidade. E a única salvação dos sobreviventes destroçados foi ter esperança, esperança de conseguir continuar, lutar até ao fim e sobreviver.

Lembro-me de uma menina que, seguindo uma superstição nipónica, dobrou mais de mil “paper cranes” – criaturas em origami – para pedir um desejo: viver.

Justamente para provar a sua perseverante capacidade de recuperação, a nação japonesa de novo ergueu a cidade e todo o mundo pode recordar que “nada se perde, tudo se transforma”.

Após a verdadeira reviravolta nos meus pensamentos, que foi tomando consciência no decorrer da minha existência, apenas posso compreender uma realidade: os fins não justificam os meios.

Agora cabe a nós, gerações vindouras, ter a perceção daquilo que aconteceu; que o destino nunca nos arraste e que os erros do passado possam ensinar a criar um futuro melhor.

Sofia Rainho

(publicado em “Acrobacias com Palavras” – publicação da Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho – de 2017/18, e na Revista Alegre – edição nº11, março de 2019)

Japão, verão de 2015

O tempo não para

Figueira da Foz, 31 de novembro de 2017

Sentimento…

Estou sonolenta. Tenho tido grandes dúvidas existenciais. Não sei nada da vida, não sei como viver, mas hei de lá chegar.

Penso que estou febril. Tenho febre de conhecimento, estou cansada de viver. Sinto-me alheia a tudo. Já antes este sentimento tomou conta da minha consciência.

A primeira vez que isso aconteceu, lembro-me bem, foi no estrangeiro, naquela grande viagem que me cativa ainda na memória. Estava, talvez, stressada com o jet lag da coisa e fiquei desorientada com tudo o que se estava a passar. Sentia-me longe, perdida no incrível, mas, ao mesmo tempo, estava consciente do que fazia. É difícil de explicar.

Na verdade, o mundo exterior parece igual, mas o meu interior, em contacto com o meio, parece retrair-se, desvanecer-se em mil e uma irrealidades irrealizáveis. É deixar de pertencer ao corpo, ver-me a mim mesma a tomar consciência do que é o mundo em que vivo.

É um processo demorado, mas que se sente de imediato. E já voltei a senti-lo, em situações inoportunas, mas ainda não aprendi como reagir, nem cheguei a superá-lo… talvez aprenda Contigo.

Estou em transe.

… musical

No entanto, algo me fez despertar.

Automaticamente, ao ouvir um habitual sonido, dei comigo a divagar em melodias, em… música.

O que é a Música senão uma tentativa… emotiva de expor o que vai na alma, inocente da magnitude da beleza que desperta, simples do pensamento que se revela de duvidoso sentido, que inspira raciocínios de inatingível esplendor…?

Música clássica, expressão do sentimento impossível, daquilo que não é possível descrever porque ainda não há palavras que o definam e que possam realmente demonstrar o que provoca.

Surgem diante de mim orquestras, em mil e um trabalhos para pôr a peça a funcionar, para atingir alguma da perfeição pautada pelo organizador de tudo, o compositor, e para seguir, à letra, o maestro.

Afinal, quem “inventou” a música? O intelecto humano? Poder descobrir tal realidade, ser capaz de criar – ou apenas de inspirar a criar – o que mais ninguém, e também toda a gente, compreende…

Mas não.

Nada mais existe, nada mais há a dizer.

Sofia Rainho

Londres em tempo de Páscoa (2015)

I was here

Figueira da Foz, 8 de novembro de 2017 –

Querida Sam,

O meu adorado amigo fez uma apresentação oral extraordinária, talvez a melhor que jamais tenha visto. Senti uma ponta de inveja por ele saber tão bem o que quer da vida, de tão radiante que estava ao defender-se de certos olhares e de comentários desinteressantes, mas não pode haver pessoa mais realizada e agradecida por conhecer alguém tão sincero e forte de espírito. E pensar que temos tanto em comum que ele não soube…

Não consigo olhar para ela sem me sentir a derreter. Apetece-me mesmo derreter, ou evaporar, para poder desaparecer e, talvez, conseguir infiltrar-me em todos os recantos do seu ser. Mesmo que não olhe para mim, a sua existência causa em mim o que não consigo ainda descrever. Sinto ao mesmo tempo que não passa tudo de uma fantasia, de uma ilusão, porque tenho a perceção de que ela não pensa o mesmo. É um vazio platónico que tento não alimentar.

Contudo, não estava preparada para sair do móvel. Tentava preparar-me mentalmente, mas é difícil pensar nas reações que terá.

Apenas sei que tenho de saber quem sou e sentir-me bem acerca disso.

Da tua,

Sofia Rainho

Placard à beira da estrada, Monte dos Burgos

Nome-não tenho

Figueira da Foz, 6 de fevereiro de 2017 –

Olá, chamo-me Sofia e tenho 16 anos. Vivo na Figueira da Foz e devia estar a estudar Geografia A para o teste de amanhã, mas enfim, I need a break too, right? Não, naao, e eu não sei como desativar a correção automática disto, por isso se houver algum erro, avisem…

Thanx

Sofia Rainho

Em casa da minha avó

Figueira da Foz, março de 2009 –

Mas que dia fabuloso
eu passei com a minha avó
Ela lia-me histórias
do seu livro cheio de pó.

Depois de uma grande tarde
o que é bom é descansar
– Vai buscar a tua manta
para nos aconchegar.

Dormitámos até tarde
sonhámos com a nossa infância
Andávamos a cavalo
e chegámos a Constância.

Vimos livros bem guardados
em estantes bem limpinhas
Imaginámos as histórias
que neles estariam contidas.

Então abrimos um livro
grosso e alto, duro e forte
E exclamámos em coro:
– Temos muita sorte!

Ouvimos um barulho
e de repente acordámos
Fomos até à porta
e o avô encontrámos.

Sofia Rainho

(1º lugar em Poesia, escalão A do Concurso Literário Dr. João de Barros 2009)