Porto, 20 de janeiro de 2020 –
Todos aqueles que perdi – porque conheci e deste mundo se foram – em mim deixaram marcas profundas. Todos me perseguem nas horas mais sombrias da minha existência, seja por um olhar, por uma referência perdida ou por um comentário descurado.
Nesses momentos, sinto saudades de segurar naquela mão suada de quem, nessa hora, tinha um objetivo final, uma meta a atingir: Santiago de Compostela. Aquele santuário cuja oração é a própria viagem e a chegada culmina em todo um caminho percorrido. Esperei demasiados anos para não o fazer e aproveitei a experiência ao máximo, mas nunca esperei conhecer alguém me faria sentir tanta dor e que, depois de partir, aprendi a admirar.
As decisões que ele tomou deixaram-me sem fôlego para viver sossegadamente e cortam-me ainda hoje a respiração. Aquela noite em que soube quis tanto gritar, expelir por qualquer forma aquela frustração e um luto que nunca havia sentido. Foi aí que a minha vida descarrilou, quis sentir o mar, quis que ele me chamasse para junto de si, quis desistir dos planos que sabia frutíferos, quis abandonar qualquer alento que sentisse por batalhas destravadas. Agora, escrevendo isto, quero apenas que esse mar pare de se manifestar nos meus olhos, qual chuva escoando por entre escombros.
Os olhos dela disseram-me tudo. Nunca falámos, mas também nenhuma de nós precisou de o fazer. Estivemos juntas uma semana, depois ela foi e eu fiquei. Fiz-lhe um barco de papel e, na esperança de que nem sequer reparasse em mim, coloquei a seu lado enquanto não olhava, como símbolo da relação e empatia que sentia existir. E ela sabia quem eu era. Vejo agora como tinha uma alma sofrida, irremediavelmente perdida – que poderia ter sido achada? – e que, de novo, a minha presença em nada melhorou a sua existência.
Por favor, perdoem-me.
Sofia Rainho
