desvaneio musical coordenativo copulativo

5 de novembro de 2021

Aquela loja de música traz muitas recordações daquilo que foi vivido e que não volta mais. Basta vê-la e relembro a primeira vez que me apaixonei, e penso também naquela antiga clareira, com amigos reunidos à volta de uma fogueira. Voltam à memória outras primeiras vezes: o primeiro acorde, o fazer soar a primeira barra… e vem uma nostalgia, que se metamorfoseia numa saudade daquele momento em que me apercebi que amava.

Foi numa tarde de verão muito calorenta. Mal entrei, tive um pressentimento de que o ambiente da loja soava diferente… mais familiar do que outras que visitara nesse dia. O dono, bastante atencioso, era capaz de afinar, apenas pelo ouvido e com uma rapidez impressionante, toda e qualquer uma que me apresentava. Pegava nelas, fazia soar uns acordes soltos e desatava a inventar melodias.

Ele tocava, e eu já não era eu. A música levava-me casualmente para fora da minha zona de conforto, mas, ao mesmo tempo, para dentro da minha própria alma – como quando se viaja. Sentia-me presa, mas sem sufocar, numa melodia viva e suave. A leveza dos movimentos, a rapidez dos dedos e a emoção do artista captavam inexoravelmente a minha atenção. Sentia uma enorme conexão com a música. Sentia que acordara. Que estava tudo bem e que tudo ficaria bem.

E…

Nem aí, nem depois, quando lá voltei mais um par de vezes, deixei de sentir o quão especial é aquele lugar para mim. Quero evitar ir lá e desejo, apenas, guardá-lo numa caixinha, para que continue intacto — tal como é na minha memória.

Mas…

Tenho medo que a minha caixinha fique vazia. Que, quando a abra num futuro próximo, veja apenas, muito ao longe, uma ilha isolada de recordações e memórias bonitas e que, a cada nova etapa da vida, não seja possível armazenar toda a tralha emocional que levo dentro. Tenho medo, porque o tempo não perdoa e, eventualmente, deixarei de sentir e de amar esse lugar. Passará a ser, apenas, um passado perdido.

Acredito no grande poder dos “ses”, dos “talvez”, dos “porquês” e da imaginação. Não porque goste especialmente dessas manifestações do intelecto que alimentam os medos, mas porque as considero — digamos — inquestionáveis. Existem, e todos estamos à sua disposição.

Porque é que eu nasci? E para quê exatamente? Tudo está já inventado…

Não, não é verdade: os detalhes; as memórias; questionar os sentidos; desafiar as sensações; os medos…

Mas o que é que é a verdade? A verdade é que somos como peões de um jogo maior, à espera que o tempo passe e que se passe o tempo. A verdade é que… tenho sonhado muito com o sonho. Com a diferença entre sonhar e viver. Vivemos num sonho ou sonhamos uma vida? Quem é que fez o mundo?

É a maior força, o medo — é sobre-humano. Não gosto de admitir que tenho medo. Medo dos dias e das noites, de não exceder as espectativas, medo de ter preocupações e problemas por resolver e de não transparecer o que pretendo transmitir. Mas o pior medo que tenho é o de me perder. Perder-me comigo mesma.

Logo…

Desejo evadir-me deste mundo demasiado real, quero escapar da realidade e não ter mais que me esconder. Nem dela (da realidade), nem de mim.

Ora… a morte parece ser a única resposta para todos os problemas que me assolam. A única que pode ser única. A vida é curta — a vida é bela, mas é a vida… E o que é a vida sem a morte e sem o sofrimento que esta causa? Se a morte também fosse um arco-íris de opções, será que seria, na mesma, uma resposta?

O fácil é lidar com pessoas quando não se tem que lidar com elas. Mas elas entranham-se lá no fundo e não há escapatória possível — quer-se ser elas, quer-se estar com elas, quer-se tocá-las, quer-se beijá-las… Quer-se, sem se poder fazê-lo — porque dizem que é um atentado à natureza, não é natural, não é discreto, não é normal…!

“Normal”! Um conceito abstrato que, na prática, seria impossível de definir. Ninguém é normal, porra! Nem mesmo Ela. Eu amo-A. É sempre alguma Ela, a Amada. Porquê? Por que é que não consigo preocupar-me em encontrar outra? Outra Ela.

Ou…

Outra eu. Porque que é que não há outra eu?

Às vezes, os olhos Dela transparecem uma quase raiva entristecida. Outras vezes, o simples não olhar para os olhos Dela é-me doloroso. Dói não poder fazê-lo sem sentir vaidade.

Portanto…

Dói-me o orgulho.

É difícil deixar tudo para trás. A História bem diz, com um rigor bem demarcado que o que custa numa revolução é só o início.

O que não diz é que, com o choro de um só acorde de guitarra, toda a solidão se desvanece e surge na ilha, lá ao fundo, um riso amoroso… quiçá de uma futura infanta bananeira.

Sofia Rainho