Início sonhado de alguma aventura

Porto, 14‎ de ‎dezembro‎ de ‎2021

            Ela fechou a janela do carro e continuou a olhar para o horizonte. O frio lá de fora sentia-se pelas frestas da janela. Lisboa, nesta altura do ano, tem algo de ventoso. Onde quer que pousasse os olhos, apenas via uma imagem. Um vazio. Muito negro.

            — Que se passa? – perguntei.

            — Nada.

            Sempre aquela resposta seca, mas com tanta humidade.

            — De certeza?

            — Sim, não te preocupes.

            Será que ela não sabe que me preocupo ainda mais por ela dizer isto? Parece que só dá respostas formatadas. Por outro lado, eu também só faço perguntas gerais. O que se passará connosco?

            — Ok.

            Zero killed. A verdade é que não é verdade. Alguns morreram. Foram mortos. Mataram-se. E esta é a sua história.

Sofia Rainho

Jeden Tag

Contumil, 3 de dezembro de 2021

Há não muito tempo atrás, quando o céu ainda sorria com muito brilho, chegou o dia em que te conheci. Estava apenas a começar a estudar na faculdade e sentia que muito ainda estaria por vir. De facto, não podia estar mais certa.

Lembro-me de te ver pela primeira vez, naquele gabinete, onde agora me dás aulas, onde me ensinas a viver, pelo qual sinto tanto carinho. Apenas porque foi lá que te conheci? Não, também por causa dos livros. Sempre os livros. Tinha tantas perguntas para te fazer. E todos os dias o sol levanta-se sem eu te ver – mais um dia sem ouvir a tua voz, mais um dia sem sentir a tua pele, mais um dia sem olhar para aqueles teus olhos cor de tudo e de nada (talvez de avelã?); e de todos os dias não te ver, perco um pedaço da minha alma. Há coisas que realmente não se dizem.

Também era o teu primeiro ano. Mas para ti o primeiro, se calhar, de muitos. Para mim, era apenas o primeiro de uns poucos. Não sei se me faço entender; o que eu quero dizer é que apenas começaste uma carreira na universidade, enquanto que eu nem uma carreira de livros consigo ler. Estou na faculdade e não leio. É um contrassenso, mas é a verdade. Entre tantos afazeres, o tempo corre mais quando menos se espera.

Desde o primeiro momento que te achei bastante atrativa. Os olhos, o nariz, o piercing no lugar certo, o jeito do cabelo… É impossível resistir perante tanta beleza feminina. Lembro-me da franja, lembro-me do computador tatuado com uma grande imagem de uma Branca de Neve gótica admirando a maçã do MacBook. Lembro-me de não conhecer mais do que uma dúzia de pessoas presentes naquele espaço, mas sentir que te conhecia desde sempre. Lembro-me dos lábios.

De qualquer forma, sempre te admirei de longe. Preocupo-me e lembro-me de ti todos os dias da minha existência. Tento esquecer-te ao emergir em filmes, vídeos, ecrãs que me exasperam. Nos meus pensamentos, surges-me sempre que paro para pensar. Até quando saio para passear e vejo o pôr-do-sol… nele vejo-te, sempre.

Desde pequena que o meu único propósito constante na vida é ser feliz. Cedo descobri que, para isso, tenho que fazer os outros felizes. Mas é difícil fazer-te feliz. O que esperas de mim? O que posso mudar em mim para que te sintas melhor? Ou preferes que eu seja eu, para sempre, e nada mais… e que continue a ser um nada para ti…? E se não sou nada para ti, como pode ser que tenha todos estes sentimentos por ti? Sentimentos contraditórios, sentimentos de desespero, sentimentos de dúvidas e medo, sentimentos de carinho e proteção, sentimentos de controlo e de querer saber sempre mais, sempre mais, sempre mais…. De saber tudo sobre ti. É isso amor? Ou paixão, sequer? Ou apenas um sacrifício mais que a minha humanidade quer que se manifeste?

Nunca namorei alguém, nunca beijei alguém. Mas amei. E sou amada. Amei pessoas que considero amigas, amei pessoas que deixaram este mundo para sempre, na sua forma física, mas que levarei sempre comigo, para onde quer que vá. Serão sempre os meus fantasmas e vão-me assombrar para o resto da vida. As lágrimas não param de cair.

Será que mereço este suplício? Será que mereço amar-te em segredo, sem saber nada sobre ti exceto o teu nome e apreciar aquilo que fazes de melhor? Não sei quem sou. Sou ressentida, sou magoada, sou confusão e sinto-me uma diversão mais para os demais. Sou um brinquedo nas mãos do tempo. Sou nada sem ti.

Para! Para de me aparecer na mente! Para de me possuir os pensamentos, todo e cada dia da minha existência! Para! Vai-te embora!!! Não quero pensar em ti, não quero sentir que me emocionas, não quero que estejas comigo todos os dias. Não quero. Na verdade, até queria, se tu quisesses. Mas não quero. Nem te conheço. E não me conheces. Mas eu quereria conhecer-te. Será que me deixarias? Mas eu não quero: vai-te embora! Eu não te escolhi, mas basta pensar no teu corpo, na tua voz, no teu olhar. E derreto-me uma vez mais a pensar nessa tua mente, que deve ser tão inteligente, tão interessante, tão fascinante, tão tua, tão como tu és realmente, tão bonita. Mas não posso. Tenho que parar de pensar em ti. Dizem que escrever sobre um assunto ajuda a racionalizá-lo e que verbalizar os problemas é bom para os resolver. Eu não concordo. Às vezes, piora-se os problemas e é uma problemática sair deles. Este parágrafo já vai longo, vamos lá sair dele.

O que me interessa agora dizer-te é: não sais da minha mente. Não sei o que fazer sobre isso. Não quero que me digas o que fazer com isso. Quero apenas que o saibas. Tens direito a sabê-lo, já que estás tão presente na minha vida. Tens um lugar especial nela. Mas não me perguntes porquê: não saberei responder-te. És como és, eu sou como sou. E sei que tudo continuará assim. Não se trata do nosso passado, ou o nosso presente, mas do nosso futuro. Na história da humanidade, sempre houve espaço para a ficção e o seu tratamento enquanto realidade. Por isso posso dizer com certeza que te amo. Porque no meu futuro sei que te vou amar. Para sempre. Até cair no esquecimento. Apesar de nada ser eterno.

As minhas mãos tremem no teclado com a força nas palavras que escrevo. São frágeis, mas úteis. São os meus amparos nas horas mais solitárias e não me desiludem. Mas agora outras mãos, maiores, se levantam. São as tuas mãos. Tuas. De quem o nome nunca poderá ser proferido. A magia do teu nome permanecerá perdida na minha memória. Por que escolheu Deus que eu te amasse? Que tenho eu para te oferecer? Nada, só estas mãos inúteis. Porquê Deus? Diz-me o porquê.

Sofia Rainho

some times i cry

Contumil, 1 de dezembro de 2021

Someone once told me it is important to cry. One has to suffer so one can feel pain and know that one is loved. When one feels like it, it is ok to cry. Crying is a most wonderful thing. The night I met this someone, I cried. It was the first time I really cried. It felt good. I felt alive.

The person who taught me this was walking the Camino for three years and was nowhere near to finishing it. You see: the Camino is a state of mind, not a place. He is inside you and grows with time. He never leaves you. He is you.

Ever since I left the Camino, I want to go back. An infinite force has been insistently calling me. I would like to find this wanderer again, talk to him, ask him if he is well and if he has cried much lately. If he still reveals strangers the beauty of life through metaphors. If he is happy. There was a sadness in his eyes. His family had abandoned him. By his own choice, he had no house, no car, no job. Only the Camino.

I want to go back because of him.

But someone else once told that some things are supposed to be said. This someone is a very dear friend of mine I shared the Camino once with. She taught me a lot during that journey. We laughed and sang a lot; we ran and walked a lot together. Sometimes, we were scared – but then we had each other. Sometimes we were too tired to talk – but at least we had each other.

To be alone is a most underrated thing nowadays – but to have a company is always better.

Sofia Rainho

desvaneio musical coordenativo copulativo

5 de novembro de 2021

Aquela loja de música traz muitas recordações daquilo que foi vivido e que não volta mais. Basta vê-la e relembro a primeira vez que me apaixonei, e penso também naquela antiga clareira, com amigos reunidos à volta de uma fogueira. Voltam à memória outras primeiras vezes: o primeiro acorde, o fazer soar a primeira barra… e vem uma nostalgia, que se metamorfoseia numa saudade daquele momento em que me apercebi que amava.

Foi numa tarde de verão muito calorenta. Mal entrei, tive um pressentimento de que o ambiente da loja soava diferente… mais familiar do que outras que visitara nesse dia. O dono, bastante atencioso, era capaz de afinar, apenas pelo ouvido e com uma rapidez impressionante, toda e qualquer uma que me apresentava. Pegava nelas, fazia soar uns acordes soltos e desatava a inventar melodias.

Ele tocava, e eu já não era eu. A música levava-me casualmente para fora da minha zona de conforto, mas, ao mesmo tempo, para dentro da minha própria alma – como quando se viaja. Sentia-me presa, mas sem sufocar, numa melodia viva e suave. A leveza dos movimentos, a rapidez dos dedos e a emoção do artista captavam inexoravelmente a minha atenção. Sentia uma enorme conexão com a música. Sentia que acordara. Que estava tudo bem e que tudo ficaria bem.

E…

Nem aí, nem depois, quando lá voltei mais um par de vezes, deixei de sentir o quão especial é aquele lugar para mim. Quero evitar ir lá e desejo, apenas, guardá-lo numa caixinha, para que continue intacto — tal como é na minha memória.

Mas…

Tenho medo que a minha caixinha fique vazia. Que, quando a abra num futuro próximo, veja apenas, muito ao longe, uma ilha isolada de recordações e memórias bonitas e que, a cada nova etapa da vida, não seja possível armazenar toda a tralha emocional que levo dentro. Tenho medo, porque o tempo não perdoa e, eventualmente, deixarei de sentir e de amar esse lugar. Passará a ser, apenas, um passado perdido.

Acredito no grande poder dos “ses”, dos “talvez”, dos “porquês” e da imaginação. Não porque goste especialmente dessas manifestações do intelecto que alimentam os medos, mas porque as considero — digamos — inquestionáveis. Existem, e todos estamos à sua disposição.

Porque é que eu nasci? E para quê exatamente? Tudo está já inventado…

Não, não é verdade: os detalhes; as memórias; questionar os sentidos; desafiar as sensações; os medos…

Mas o que é que é a verdade? A verdade é que somos como peões de um jogo maior, à espera que o tempo passe e que se passe o tempo. A verdade é que… tenho sonhado muito com o sonho. Com a diferença entre sonhar e viver. Vivemos num sonho ou sonhamos uma vida? Quem é que fez o mundo?

É a maior força, o medo — é sobre-humano. Não gosto de admitir que tenho medo. Medo dos dias e das noites, de não exceder as espectativas, medo de ter preocupações e problemas por resolver e de não transparecer o que pretendo transmitir. Mas o pior medo que tenho é o de me perder. Perder-me comigo mesma.

Logo…

Desejo evadir-me deste mundo demasiado real, quero escapar da realidade e não ter mais que me esconder. Nem dela (da realidade), nem de mim.

Ora… a morte parece ser a única resposta para todos os problemas que me assolam. A única que pode ser única. A vida é curta — a vida é bela, mas é a vida… E o que é a vida sem a morte e sem o sofrimento que esta causa? Se a morte também fosse um arco-íris de opções, será que seria, na mesma, uma resposta?

O fácil é lidar com pessoas quando não se tem que lidar com elas. Mas elas entranham-se lá no fundo e não há escapatória possível — quer-se ser elas, quer-se estar com elas, quer-se tocá-las, quer-se beijá-las… Quer-se, sem se poder fazê-lo — porque dizem que é um atentado à natureza, não é natural, não é discreto, não é normal…!

“Normal”! Um conceito abstrato que, na prática, seria impossível de definir. Ninguém é normal, porra! Nem mesmo Ela. Eu amo-A. É sempre alguma Ela, a Amada. Porquê? Por que é que não consigo preocupar-me em encontrar outra? Outra Ela.

Ou…

Outra eu. Porque que é que não há outra eu?

Às vezes, os olhos Dela transparecem uma quase raiva entristecida. Outras vezes, o simples não olhar para os olhos Dela é-me doloroso. Dói não poder fazê-lo sem sentir vaidade.

Portanto…

Dói-me o orgulho.

É difícil deixar tudo para trás. A História bem diz, com um rigor bem demarcado que o que custa numa revolução é só o início.

O que não diz é que, com o choro de um só acorde de guitarra, toda a solidão se desvanece e surge na ilha, lá ao fundo, um riso amoroso… quiçá de uma futura infanta bananeira.

Sofia Rainho

Amor

Contumil, 12 de outubro de 2021

Quem
me dera, a mim,
descrever-te, a ti,
como o mundo para
de girar de cada vez que
se dá o cruzar das nossas existências.

Quem me dera, a mim, chamar-te, a ti:
a primeira do que é teu é a décima
e é parte da sexta de ti – que
já é última.

Quem
me dera, a mim, dizer-te
como esta brisa do rio ao luar
me relembra os teus olhos despertos
e os meus, sonolentos, mirando-te sempre.

Quem me dera falar-te da tua beleza,
elogiar a tua elegância
de pensamentos,
informar-te
daquilo
que
em
mim
despertas.

Ei! Ó tempo –
traz de volta
a inocência
e priva-me
de sentir
o vento
chamar
-me,
apenas,
como uma
mágoa perdida
no meio da

solidão.

Sofia Rainho

contradita de vírgulas e outros pontos que tais

Figueira da Foz, 25 de abril de 2021 –

As nuvens passam, e deixam cair por terra o tempo. Desvanecem-se as memórias das tuas feições, essas curvas e linhas que tanto me dão gosto apreciar quando estou na tua presença.

Agora, o sol brilha. Agora, os pássaros cantam. Mas, quando estou contigo, ouço apenas um mar, que me convida; vejo apenas um horizonte infindável nos teus olhos. Porque me atrais tanto? Porque não estás comigo? Sinto-te, mas não te tenho e, por muito que queira sorrir por saber que olhas para mim quando o fazes, acercam-se-me sempre as duvidosas incertezas.

Quero-te bem, quero… nada mais do que olhar pela janela e ver o teu reflexo num brilho de sol. Quero-te ver nas nuvens brancas do amanhecer, na aragem suave do entardecer, na escrita destas horas vagas.

Porque me deixas com tanto desalento? Se te vejo em sonhos, choro porque não estás lá; se te sinto em mim, choro porque não estás aqui. Quero deixar-te mensagens, códigos, jogos, brincadeiras. Talvez o possa fazer. Mas como? Não quero que me julguem, que nos julguem, que te julguem. Não sei viver sem paixonetas. E tu não és nada mais do que uma. Lamento. É assim que me sinto. Amo-te. Amo-me.

Amo-te para me amar, para me respeitar, para me sentir, para me viver, para me respirar.

Amo-te, mas não sei como to dizer. Mas amo-te. Amo-te realmente? Amo esse teu olhar doce, as tuas palavras deliciosas, os teus comentários nobres (sim, eu ouço-os) e a ti. Amo-te a ti. Acho eu. Acha um eu em mim dentro. E eu amo-o.

Não sei senão escrever o que sinto e preciso sempre de alguém a quem o escrever. Escrever por escrever não me satisfaz: preciso de um propósito, um desabafo, um olhar mais cruel ou mais racional sobre o que penso e sinto e quero. Sobre ti. Sobre nós. Sobre mim.

(Que as minhas prioridades estão trocadas, sei-o eu. E talvez mais alguéns, mas sobretudo eu mesma.)

Sobre nós. Sobre ti. És bela e sinto algo especial quando estou contigo. Esse algo sou eu. Sinto-me especial. És bela e, quando olhas para mim, sinto que me olhas com a tua alma inteira, sem haver vazios, nem aflições, nem ‘porquês’, nem limões. Era só para rimar. Será que gostas de kiwis? Desculpa, é que eu não. Divago muito, isso sim. És bela e maravilhas-me com esse teu jeito de falar. É um pouco estranho, devo admitir, mas, agora, gosto de o ouvir. Gosto de te ouvir. Muito. Adoro ouvir-te. Amo ouvir-te. Amo-te?

Antes, pensava que só se vivia uma vez. Que é preciso aproveitar a vida. Que cada dia que passa nos dá menos tempo, tempo esse para ser feliz e realizada. Mas já não. Agora, não. Agora, só quero viver contigo, que me contes as mentiras mais bonitas, as verdades mais falaciosas e quero acreditar em ti. Que me digas que não dói. Que, aqui, onde me sento a escrever, (ainda não ou) nunca chorei amargamente. Por quem eu não esqueci. Por quem não viveu o suficiente. Por quem não sabe quanto é o suficiente. Por quem já não viveu. Quem não vive já. Não vive. Não.

Não.

Não. Não quero viver. Não quero viver sabendo. Viver sabendo que não vivem. Que eles não vivem. Os meus fantasmas. Os que me dão medo de poder alguma vez sonhar com eles. Não quero vê-los. Eles não vivem. Mas estão dentro de mim. Se eu for viva, quererá dizer que eles estão vivos? E se eu estiver morta? Quero não-viver. Pela dor. Pela morte.

Voltar onde os vi, onde me via, vivos, ambos, todos, é morrer por dentro. Este lápis vive, viverá, sempre haverá vestígio dele. Nestas páginas, no lixo, no pó ao qual voltará com o passar do tempo. Viverá mais do que eu. Mais do que eles. Os fantasmas. Os não-vivos, que vivem nas paredes da minha memória. Por eles, ‘vivo’. Queria que isso fosse verdade. Queria que mo dissesses ao ouvido, numa noite de luar, num campo de erva fresca e húmida, num país estrangeiro, numa época de paz e saúde… Não quero saber. Da verdade. Diz-mo. Ao ouvido.

As contorções do meu enjeitado corpo acordado jamais demonstrarão tudo o que sinto e penso e quero. Mas – meu amor, que não és minha, nem nunca serás – que as minhas palavras, por ocas que sejam, te sirvam de consolo. Elas apaziguam a minha alma (quando estou viva) e fazem-me sentir viva (quando não o esteja).

És bela.

És vida.

Sofia Rainho

Abrigo dos sonhos

Figueira da Foz, 24 de abril de 2021 –

Tempos de quarentena dão para reparar nos detalhes mais interessantes do Mundo Natural.

Por detrás de cada máscara, por detrás dos fatos e das toucas, encontra-se o ser humano mais altruísta, mais humano e despretensioso. Atravessando os mais variados habitats, a qualquer hora do dia, este ser pode revelar-se tímido, mas com atitudes que demonstram pouca reserva. Com o coração nas mãos, atravessa qualquer superfície com ar desgastado, mas sempre intimamente atento.

Sim, és tu, que lês. Tu, cujo alento se esvai pelas horas corridas, em noites mal dormidas, em dias que nunca mais acabam… Tu, à espreita de mais um foco; tu, que com pouco fôlego continuas a sonhar em dias melhores.

Quero que saibas que eu, tal como tanta gente, penso em ti. E que, naqueles momentos em que, no teu quotidiano, te possa atravessar um sentimento de revolta, de confusão, de desistência, deves ter presente que existe algo, em todos os momentos da tua vida, que se agarra a ti, mais até do que ar que te rodeia; algo que não podes separar de ti, tal como o mar não pode ser separado da terra; existe um fogo que não se apaga… E essa chama eterna tem um nome: chama-se  a m o r.

Saudações daquela que tanto te quer!

Sofia Rainho

Escritor(a) ausente

Figueira da Foz, 15 de abril de 2021 –

Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.
(Pablo Neruda, Poema 14)

O caderno caiu, ela despertou.

Do rasto de um seu olhar salvagendo
seiva salobre, arde a marcha em mar.
Não há problema em o crescer chamar –
Insensatez da ilusão involvendo.

Em matar a vida – acaso parido –,
outrora harmónica lucidez houve:
Quanto vale o que quer que ela soube?
Vi a toda cair num puro ruído:

Senhor(a), teus olhos doces cativam
N’hora do dia em que amornece a tarde –
O fado meu, fortuna toda vossa.

Abismadas como os verdes desviam,
Vira o disco e a ninfa toca o marde –
Alvoraçando uma mente só nossa.

Sofia Rainho

Die Insel meiner Lebenserinnerungen

Es war einmal ein alter Mann, der am Jakobsweg lebte. Er hatte keine Lust, nach Santiago de Compostela zu gehen. Er hatte nur die Absicht, alleine im Wald zu wandern. Er sagte mir wunderbare Metaphern. Die Menschen wollen einfach frei sein. Das Leben hat keine Geheimnisse. Man weint, die Blumen blühen und die Zeit geht weiter.

Nach der Begegnung mit diesem interessanten Mann habe ich vorgehabt, alle meine Erinnerungen auf einer Trauminsel zu behalten. Wenn ich mich sehr schlecht fühle, gehe ich im Traum auf meine Insel. Sie ist mein Refugium, um vor der Realität zu fliehen.

Es gibt dort eine dunkle Höhle, in der ich mich mit meinen Großeltern und meinen Freunden, die tot sind, treffe. Es ist schwierig weiterzuleben, denn ich vermisse sie. Doch ich habe auch viel Spaß auf meiner Insel. Ich habe alle meinen glücklichen Erinnerungen im Wald gepflanzt.

Ich sehe Ereignisse der Vergangenheit und ich reise wieder. Ich wache bei Anbruch der aufgehenden Sonne auf, setze den Rucksack auf meinem Rücken und fahre nochmal mit dem Fahrrad in die Nähe des Flusses. Aber ich bin nie müde.

Ich sehe bewegende Augenblicke, in denen ich mit Menschen auf die Straße gegangen bin. Ich habe sie auf in meiner speziellen Schatztruhe behalten. Menschen riefen einander zu und umarmten sich. Jetzt muss man zu Hause bleiben. Wenn die Coronapandemie vorbei ist, wird man vor Freude weinen.
Ich habe auch einige Erinnerungen am Strand gebaut. Es ist immer heiß und sonnig. Meine Freunde und ich laufen, tanzen und schwimmen gerne. Ich freue mich sehr über den Wind und den Geruch des Meers und ich vermisse es. Ich finde es entspannend, das Lachen der Möwen zu hören.

Alles klingt süß. Ich will wieder frei sein.

Sofia Rainho

(terceiro lugar no concurso de escrita Die Zeit: ein Schreibwettbewerb an der FLUP*, no nível B1 com o tema Nostalgie der Vergangenheit)

*organizado pela página Alemão ist lustig em conjunto com a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Núcleo de Estudantes de Línguas Aplicadas, o Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais da Universidade do Porto, o Departamento de Estudos Germanísticos e o Deutscher Akademischer Austauschsdienst