Contumil, 3 de dezembro de 2021 –
Há não muito tempo atrás, quando o céu ainda sorria com muito brilho, chegou o dia em que te conheci. Estava apenas a começar a estudar na faculdade e sentia que muito ainda estaria por vir. De facto, não podia estar mais certa.
Lembro-me de te ver pela primeira vez, naquele gabinete, onde agora me dás aulas, onde me ensinas a viver, pelo qual sinto tanto carinho. Apenas porque foi lá que te conheci? Não, também por causa dos livros. Sempre os livros. Tinha tantas perguntas para te fazer. E todos os dias o sol levanta-se sem eu te ver – mais um dia sem ouvir a tua voz, mais um dia sem sentir a tua pele, mais um dia sem olhar para aqueles teus olhos cor de tudo e de nada (talvez de avelã?); e de todos os dias não te ver, perco um pedaço da minha alma. Há coisas que realmente não se dizem.
Também era o teu primeiro ano. Mas para ti o primeiro, se calhar, de muitos. Para mim, era apenas o primeiro de uns poucos. Não sei se me faço entender; o que eu quero dizer é que apenas começaste uma carreira na universidade, enquanto que eu nem uma carreira de livros consigo ler. Estou na faculdade e não leio. É um contrassenso, mas é a verdade. Entre tantos afazeres, o tempo corre mais quando menos se espera.
Desde o primeiro momento que te achei bastante atrativa. Os olhos, o nariz, o piercing no lugar certo, o jeito do cabelo… É impossível resistir perante tanta beleza feminina. Lembro-me da franja, lembro-me do computador tatuado com uma grande imagem de uma Branca de Neve gótica admirando a maçã do MacBook. Lembro-me de não conhecer mais do que uma dúzia de pessoas presentes naquele espaço, mas sentir que te conhecia desde sempre. Lembro-me dos lábios.
De qualquer forma, sempre te admirei de longe. Preocupo-me e lembro-me de ti todos os dias da minha existência. Tento esquecer-te ao emergir em filmes, vídeos, ecrãs que me exasperam. Nos meus pensamentos, surges-me sempre que paro para pensar. Até quando saio para passear e vejo o pôr-do-sol… nele vejo-te, sempre.
Desde pequena que o meu único propósito constante na vida é ser feliz. Cedo descobri que, para isso, tenho que fazer os outros felizes. Mas é difícil fazer-te feliz. O que esperas de mim? O que posso mudar em mim para que te sintas melhor? Ou preferes que eu seja eu, para sempre, e nada mais… e que continue a ser um nada para ti…? E se não sou nada para ti, como pode ser que tenha todos estes sentimentos por ti? Sentimentos contraditórios, sentimentos de desespero, sentimentos de dúvidas e medo, sentimentos de carinho e proteção, sentimentos de controlo e de querer saber sempre mais, sempre mais, sempre mais…. De saber tudo sobre ti. É isso amor? Ou paixão, sequer? Ou apenas um sacrifício mais que a minha humanidade quer que se manifeste?
Nunca namorei alguém, nunca beijei alguém. Mas amei. E sou amada. Amei pessoas que considero amigas, amei pessoas que deixaram este mundo para sempre, na sua forma física, mas que levarei sempre comigo, para onde quer que vá. Serão sempre os meus fantasmas e vão-me assombrar para o resto da vida. As lágrimas não param de cair.
Será que mereço este suplício? Será que mereço amar-te em segredo, sem saber nada sobre ti exceto o teu nome e apreciar aquilo que fazes de melhor? Não sei quem sou. Sou ressentida, sou magoada, sou confusão e sinto-me uma diversão mais para os demais. Sou um brinquedo nas mãos do tempo. Sou nada sem ti.
Para! Para de me aparecer na mente! Para de me possuir os pensamentos, todo e cada dia da minha existência! Para! Vai-te embora!!! Não quero pensar em ti, não quero sentir que me emocionas, não quero que estejas comigo todos os dias. Não quero. Na verdade, até queria, se tu quisesses. Mas não quero. Nem te conheço. E não me conheces. Mas eu quereria conhecer-te. Será que me deixarias? Mas eu não quero: vai-te embora! Eu não te escolhi, mas basta pensar no teu corpo, na tua voz, no teu olhar. E derreto-me uma vez mais a pensar nessa tua mente, que deve ser tão inteligente, tão interessante, tão fascinante, tão tua, tão como tu és realmente, tão bonita. Mas não posso. Tenho que parar de pensar em ti. Dizem que escrever sobre um assunto ajuda a racionalizá-lo e que verbalizar os problemas é bom para os resolver. Eu não concordo. Às vezes, piora-se os problemas e é uma problemática sair deles. Este parágrafo já vai longo, vamos lá sair dele.
O que me interessa agora dizer-te é: não sais da minha mente. Não sei o que fazer sobre isso. Não quero que me digas o que fazer com isso. Quero apenas que o saibas. Tens direito a sabê-lo, já que estás tão presente na minha vida. Tens um lugar especial nela. Mas não me perguntes porquê: não saberei responder-te. És como és, eu sou como sou. E sei que tudo continuará assim. Não se trata do nosso passado, ou o nosso presente, mas do nosso futuro. Na história da humanidade, sempre houve espaço para a ficção e o seu tratamento enquanto realidade. Por isso posso dizer com certeza que te amo. Porque no meu futuro sei que te vou amar. Para sempre. Até cair no esquecimento. Apesar de nada ser eterno.
As minhas mãos tremem no teclado com a força nas palavras que escrevo. São frágeis, mas úteis. São os meus amparos nas horas mais solitárias e não me desiludem. Mas agora outras mãos, maiores, se levantam. São as tuas mãos. Tuas. De quem o nome nunca poderá ser proferido. A magia do teu nome permanecerá perdida na minha memória. Por que escolheu Deus que eu te amasse? Que tenho eu para te oferecer? Nada, só estas mãos inúteis. Porquê Deus? Diz-me o porquê.
Sofia Rainho

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