Mainz, 3 de dezembro de 2025 –
lê-me
lê uma história, um poema –
um fragmento de uma vida…
lê-me…
lê o que queiras,
que recordes –
descreve-me o que vês
e escreve-me,
mas antes
lê-me, por favor,
na tua língua,
uma história, um poema –
Sofia Rainho
Mainz, 3 de dezembro de 2025 –
lê-me
lê uma história, um poema –
um fragmento de uma vida…
lê-me…
lê o que queiras,
que recordes –
descreve-me o que vês
e escreve-me,
mas antes
lê-me, por favor,
na tua língua,
uma história, um poema –
Sofia Rainho
Mainz, 27 de novembro de 2025 –
que bonito é amar
assim, à distância
que bonito é sonhar
assim, com miradas
que bonito é querer
assim –
sem beijar, acariciar, sem tocar
sem máscula, malícia, mácula
sem amar – amando
escolher a vida à magia
escolher a verdade ao sonho e
melancolicamente chamar
àquilo que existe
aquilo que é.
Sofia Rainho
Mainz, 2 de novembro de 2025 –
A cidade à noite tem outra magia
A cidade à noite é cheia de melancolia
Espera-se sofregamente que chegue o dia
Mas a noite dura
E dura a correria
E dura da lua a razia
Até ser dia
Cidade noite dia
Qual delas me avia?
Sofia Rainho

Esch-sur-Alzette, 4 de julho de 2025 –
Capo 4
G B7 C Am
Quem me dera a mim dizer-te aquilo que sinto,
C F E
De uma vez por todas desbocar-me.
G B7 C Am
Quem me dera por um dia dizer que não minto
F D B7
Olhar-te nos olhos e chamares-me:
E C#m A F#m
Filha do céu, do sol, do vento e do mar:
D Bm B7
Amar é uma bagagem que acumula.
E C#m A F#m
Crescer a ouvir, cantar, falar e mergulhar –
D Bm E
Amar é uma aragem que não muda.
Sofia Rainho
Esch-sur-Alzette, 3 de julho de 2025 –
Ontem sonhei que o meu pai morria. O meu avô também. Acordei em lágrimas, muito depois do despertador tocar – porque ele não tocou.
Os sonhos só trazem problemas. Levam-nos a imaginar coisas que não existem, realidades inventadas pela nossa cabeça…
Estou farta de fazer luto por quem não vale a pena. De chorar por algo que nunca poderia acontecer, porque a maioria das mulheres por quem me apaixono não apreciam a minha companhia da mesma maneira que eu. De ter que me embebedar para que as minhas emoções reais ressurjam – nesta mentira em que tento enterrar-me todos os dias que vivo em sobriedade. Odeio álcool, mas a verdade é que me faz sentir. Chorar. Abraçar-me e querer-me como ninguém mais me quer.
A vida é isto? Se não me atiro da janela é porque já decidi, há uns anos, que me entregarei ao mar. Sou do mar e de mais ninguém. Quando mais ninguém se importar por mim, será lá que encontrarei repouso eterno. Porque a mim o mar nunca me enganou. Porque seguindo-o, ele nunca me mentiu. Sempre me encarou com a serenidade que necessita a minha alma. Sempre me amou sem julgar os meus sentimentos.
Viver é isto? É não querer continuar este sofrimento, duvidar a cada segundo da credibilidade dos meus sentimentos, querer beijar uma mulher que jamais me amaria desta forma? Porquê? PorquÊ??? Se eu parar de respirar, quem vai reparar?
Sofia Rainho
Belval, 13 de junho de 2025 –
É perigoso, mas gosto mesmo assim.
É inflamável, mas revolca-me por dentro.
A luz que trazes dentro é vida:
quando se vai, o nervosismo esvai-se e fica só a monotonia.
Sofia Rainho
Luxemburgo, 25 de maio de 2025 –
— Um amigo meu faleceu. Fui ao velório na quinta-feira — disse ela, finalmente.
— Os meus sentimentos! — respondeu alguém. — Eram muito próximos?
Ela pensou em cada acorde que ele lhe ensinou. Nos acampamentos de jovens que ele organizou. Nas pessoas que ele tocou com aquele olhar acolhedor e mãos abertas para ajudar. Sempre com amor pelo trabalho bem feito.
— Não muito. Ele estava doente, mas todos estavam à espera que ficasse bom.
A conversa foi fluindo, embora parando por vezes. Sentadas na relva molhada, ao frio, as duas acabaram por se deitar a observar as estrelas. O céu estava limpo. As estrelas brilhavam, lá do alto, iluminando o nervosismo deste encontro de almas. Por muitas noites, ela relembrá-lo-á assim. Algum dia destes, alguém recordará talvez outros pormenores, outros lugares, outras pessoas. Ela recorda-o assim, tal como está gravado e perdido nos confins da memória de ninguém.
— Faz-me pensar noutro amigo meu, que decidiu tirar a própria vida. Eles conheciam-se.
Ela seguiu a explicar as inseguranças que tem com a escuridão da morte. Muitos jovens que se suicidam. A própria família dela, que ela nunca chegou a conhecer, são coisas que a inquietam. Não sabe bem explicar como se sente, mesmo quando alguém pergunta como surgem estes pensamentos e se não é tudo uma grande confusão.
— Sabes, às vezes sinto-me atraída por ti — acabou por admitir alguém.
Ela ficou sem saber o que dizer. Foi tudo o que ela quis ouvir durante meses a fio, para contrariar aquelas vozinhas lá no fundo do ser que sempre lhe murmuravam: “Claro que alguém nunca poderia gostar de ti, idiota! És uma pessoa horrível, nem cozinhar sabes, tens medo até de conduzir!” e por aí fora. Agora, neste momento tão decisivo, o que dizer?
Aproximou-se e contou-lhe tudo. Como nunca tinha sentido tantos sentimentos ao mesmo tempo. Tanto medo e tanta fúria. Contou-lhe como imaginava que algum dia esta hora chegasse, para poder dizer o que realmente sentia. Alguém permaneceu pensativa durante algum tempo e começou a fumar outro cigarro.
— Queres provar? — perguntou.
— Eu nunca fumei…
Alguém encolheu os ombros.
Depois de inalar, tossir e acabar a rir-se às gargalhadas, ela olhou alguém nos olhos.
— Está muito frio aqui. Vamos subindo?
E subiram.
Sofia Rainho
Luxemburgo, 25 de maio de 2025 –
A porta trancou-se de súbito com a força do vento e ela voltou-se para trás. Ainda assustada com o barulho, arregalou os olhos fixando o vidro da porta e rezou internamente para que a porteira não tivesse ouvido o estrondo causado pela corrente de ar. De seguida, desatou a correr pelas escadas acima.
O choro começou mal entrou pela porta do apartamento, mas as lágrimas só caíram enquanto acabava de desatar os atacadores. Sentada no chão à porta do quarto, a tentativa de conter tanta dor e luto desbordou. Abraçada às lágrimas, a última pergunta pairava, repetindo-se na mente dela e infetando com um só sopro qualquer outro pensamento. A pergunta derradeira.
— Mas está tudo bem?
Embora pareça inocente, é uma pergunta cheia de camadas. Camadas e camadas de nada, mas que pode desabar tanta coisa num instante. Como estas lágrimas, um pedido de socorro que surgiu sabe-se lá de onde… mas sem esta interrogação, definitivamente não teria chegado este momento.
— Sim.
Foi uma resposta seca e sem pensar. Uma resposta automática. A garantia de uma certa segurança. E, contudo, esta ideia continuava a pairar no ar… como aquele pó que surge num raio de sol e de repente começa-se a duvidar se limpar o pó de um quarto realmente adianta de alguma coisa – já que ele anda sempre por aí, a pairar e a pousar até se acumular e ninguém sabe realmente onde acaba este ciclo. As lágrimas começaram a trazer soluços e ranho e a escuridão da noite tornou o ambiente ainda mais inconsolável.
Ela levantou-se, continuando a limpar aquele rio de dor, e saiu porta fora. Devagar, mas sem pensar muito, desceu as escadas e abriu a porta com expetativa.
Lá fora, no frio da madrugada, alguém fumava. Alguém que já não era só alguém, mas que significava muito mais para ela. Alguém com quem ela tinha sonhado, ainda que sem desejá-lo; alguém de quem ela tinha tentado a todo o custo afastar-se, impor limites, seguindo o conselho: “Longe da vista, longe do coração”. E, ainda assim, alguém que continuava presente na memória de noites frias de solidão, numa varanda em que se ouvem todos os aviões, cantando de cor e salteado cancioneiros da música popular.
— Não, não está tudo bem — disse ela, cabisbaixa e esperando a reação de alguém. — Posso dar-te um abraço?
Chorando ainda mais, aquele envolver de braços quente assemelhava-se a uma recompensa. Tanto tempo de resistência, horas de aguentar compassos de espera para usar espaços comuns, momentos de perseverar perante a necessidade de manter uma distância física e de não deixar transbordar todo o sentimento… de manter-se firme numa posição superior de indiferença.
— Mas o que é que se passa, está tudo bem? — perguntou uma voz curiosa, vinda da janela do rés-do-chão. A porteira olhava para a rua com um olhar inquisidor.
— Não se preocupe, Dona Ana. Não vamos causar mais confusão — disse alguém. E, pegando na mão dela, seguiram para o jardim, junto da avenida onde passam mais ambulâncias que aviões.
— Então? Por que voltaste?
Essa voz, tão neutra, tão difícil de decifrar – o maior enigma de ser humano. É uma voz honesta? É uma voz que sinceramente se preocupa? Ou é uma voz curiosa, com sede de conhecimento, que se corrompe mal as costas estão voltadas e a garganta arrefecida?
Ela pensou bem naquilo que ia dizer. É difícil manter a compostura depois de beber pelo menos três copos de vinho e de cantar inebriada pelo menos três guitarradas.
Sofia Rainho
Esch-Sur-Alzette, 24 de maio de 2025 –
Caritas patiens est. (Corinthios I 13:4)
O cursor pulsa. O meu coração pulsa. Estar viva é isto. É saber que não sei a verdade e admiti-lo sem fervor. É chorar sem saber quando, amar sem saber como, dançar sem saber onde.
Morte, por que me persegues, até na música? Na música sobretudo, na música, na música, na música. Preciso de ti como o meu corpo precisa de ar. És aquela presença na minha vida que não desilude – já que todas as outras em que confio me deixam ficar mal.
Espíritos, guiai-me. 2022. Porto, casa cor-de-rosa. Uma jornalista espanhola entra na sala de jantar, conversamos sobre Frederico García Lorca enquanto comemos um franguinho com Cacho Fresco. Enquanto isso, a Mariana canta aos altos berros no quarto do fundo do corredor, e a pessoa mais simpática à face da terra ensina pelo computador a língua da Lusofonia a criancinhas. Ali fiquei, coladinha à espanhola. Cedo amei, tarde me arrependi. Na casa em que todos os ruídos se escutam, passado um mês era eu a escutá-los a todos. Nunca tinha bebido uma garrafa de vinho do Porto, mas no dia seguinte a dor de cabeça continuava a não ser o suficiente para suportar a dor do luto. E quando saí à rua, ela nem me reconheceu.
Estou a suar porque pensei em ti ou porque o aquecedor está ligado? 2023. Lisboa, casa dos aviões a cada hora. Na primeira noite não consegui dormir com o ruído dos aviões. Acho que só tive mais medo quando fiquei presa debaixo de uma bicicleta. Ao longo do tempo fiquei a conhecer uma jornalista açoriana com quem partilhava a parede. Ainda preciso desses olhos. Tarde amei, cedo me arrependi. Chorei muito quando me apercebi. E quando voltei à capital, ia sempre para casa pelo mesmo caminho, para a ver algum dia à janela. Só que ela nunca voltou a aparecer.
Não admira que prefira avançar no tempo uns anos ao invés de voltar atrás do tempo. Se vejo sinais contraditórios, é porque não há sinais bons – senão seriam fáceis de identificar, certo? Aprendi a aceitar a dor e a lidar com ela. Morri. O meu coração morreu e vou enterrá-lo à beira-mar junto aos olhos mais lindos que jamais conheci. Para que ninguém o encontre. Não perguntes, não contes.
Sofia Rainho
Luxemburgo, 21 de março de 2025 –
Olho pela janela do comboio e procuro na paisagem os teus olhos.
Vejo o verde dos campos, o castanho das casas, o cinzento do céu e das estradas… mas não te vejo a ti.
Admiro a luz que emana das nuvens refletir nos riachos e a esperança com que a gente espera por entrar na carruagem… mas não te admiro a ti.
Vejo tanta coisa, mas não vejo nada ao mesmo tempo. Porque quero ver-te.
Ainda há poucas horas te vi – mas foi já há tanto tempo… em poucos dias te verei – mas falta ainda tanto tempo… Cada segundo que passa e que penso em ti parece desperdiçado e, ao mesmo tempo, aproveitado. Porquê? É óbvio…
Quando estou contigo, o tempo passa a correr. Quando não te vejo, é tudo tão lento e devagar… Menos quando me olhas nos olhos e depois para a minha boca e de novo os meus olhos – aí o tempo passa rápido e lentamente ao mesmo tempo.
Sinto-me estranha perto de ti. Quero ver-te, olhar-te, falar-te, beijar-te, querer-te. Por isso proíbo o meu corpo de mostrar todas estas vontades – não te posso ter porque não te mereço, porque talvez não me vejas da mesma maneira, porque estes pensamentos e sentimentos consomem-me demasiado e não me parecem muito saudáveis. Até voltei a ouvir Marília Mendonça para sentir que alguém mais no mundo compreende o que sinto…
Por quanto tempo será que verei os teus olhos quando fecho os meus?
Sofia Rainho
Esch-sur-Alzette, 18 de março de 2025 –
In deinen Augen will ich tief,
tief schwimmen
In deinem Mund will ich immer,
immer leben
Was ist romantischer als diese Gefühle von
von Freiheit
Wenn ich deine Muttersprache
-sprache lerne?
Willst du auch
auch meine Sprache kennen
und mit deiner Zunge die
die schönsten Worte sprechen?
Naja… unsere Muttersprachen gehören uns
uns nicht,
aber trotzdem fühle ich mich dir
dir näher…
Ich weiß schon, was ich fühle – aber was soll ich jetzt tun?
Sofia Rainho
Esch-sur-Alzette, 9 de março de 2025 –
É tão difícil viver. Eu sei o que sinto, mas não sei o que sentes.
Fecho os olhos para ver os teus. Esses olhos majestosos, grandes, lindos. Dá-me uma vontade de chorar enorme por não saber quando poderei voltar a olhar para eles; como quando te voltei a ver depois de mais de um mês sem o fazer…
Mas depois penso em ti. És linda, mas provavelmente nem te lembras de mim. E se lembrares, o que posso eu fazer? Não quero gerar mau ambiente quando sei que vamos estar juntas mais um ano e meio… Não sei se consigo resistir a dizer-te como me sinto. Sou muito má a ler e interpretar bem o que as pessoas realmente sentem por mim. E, ainda assim, esses olhos grandes, gigantes, majestosos seguem-me para onde quer que vá. E eu quero que me sigam – mas também sei que seguem problemas. Sei mesmo? Ou só tenho medo? Tenho mesmo muito medo. Mesmo muito. E ainda assim quero imenso beijar-te.
Tenho que parar de ser tão estúpida e parecer desinteressada. O medo paralisa-me e causa-me ansiedade. Tenho quase a certeza de que, se falar contigo, tudo será mais simples.
Tenho saudades tuas. O que fazes agora? Odeio estar a voltar a sentir isto – e, mesmo tempo, gosto. Está tão bom tempo lá fora. Não queres ir comer um gelado? Não queres ir comer? Não (me) queres comer?
Sofia Rainho
Figueira da Foz, fevereiro de 2025? –
Ich sehe wohin ich sehe
Deine Augen, die verschlafen sind
Dein Haar, so lang
Dein Mund – so…
peinlich ist es mir jetzt…
weil ich egoistische Gedanken
gerade habe
dich zu küssen…
wäre das nicht wie im Traum,
in dem die Engel „Halleluja“
gesungen haben…
wo ich in die Tiefe deiner Augen blicke
und die Schönheit der ganzen Welt sehe
– so große Augen hast du –
Ach… keine Lösung mehr [der Kugelschreiber ist hier kaputt gegangen]
Sofia Rainho
Porto, 21 de janeiro de 2025 –
Odeio fazer trabalhos escritos no computador. Porquê? Talvez seja porque sempre me distraio… Mas porquê? Talvez seja porque estou sozinha. Mas porquê? Porque penso que estando sozinha me consigo concentrar melhor nos trabalhos. Mas isto não acontece. Porquê? Porquê?
Tenho dois trabalhos para entregar daqui a uma semana e meia. Pelo meio tenho palestras a que tenho que assistir. Será que vou conseguir fazer tudo?
Não quero estar aqui. Quero sair, quero ver o mundo. Quero sentir o fresco na cara no topo de uma montanha. Quero sentir o calor do sol sentada nas areias de uma praia. Quero sair, viajar de comboio e olhar pela janela para ver o mundo lá fora. Quero sair deste mundo de incertezas que é a minha cabeça, quero arrancar os cabelos e cair na real e fazer estes trabalhos. Estes trabalhos… O quanto me custam estes trabalhos e o quanto me é fácil estar a escrever isto em vez de os fazer. Porquê?
Há uns anos aprendi que, se perguntar muitas vezes “Porquê?”, se calhar uma melhor abordagem é perguntar “Por que não?”. Mas neste caso, será que funciona assim? Por que não os odeio – isto é, por que gosto deles? Esta pergunta não faz muito sentido, certo? Eu odeio fazê-los. Mas por que não os faço? É assim tão complicado?
Não, não é. Mas já sei que não vou gostar do resultado. Se demorar muito tempo a fazê-los, vou estar sempre a mudá-los, a “melhorá-los”. Se os fizer à pressa, nos últimos dois dias antes do prazo, tenho que entregar como ficar e pronto. Não há cá analisar e sobreavaliar. Não há espaço para refazer.
E se entregar 3 ou 6 dias, semanas, meses depois? Aí então não há qualquer pressão, qualquer ansiedade ou stress, qualquer preocupação. A ocupação anterior foi ficar frustrada por não ter sido capaz de terminar a tempo e horas, e é fácil arranjar qualquer desculpa para satisfazer o meu ego e desculpar-me a mim mesma. Alguém que morreu, alguém que agora governa o mundo, alguma tragédia que aconteceu no meu mundo ou fora dele… é o suficiente. E será que eu sou suficiente?
Sofia Rainho
Porto, 10 de outubro de 2024 –
Your hair smells so good,
Deine Augen sind so schön…
You make my body ache like
I’ve felt so long ago…
I’d never expect this —
or habe ich schon davon geträumt? —
but you make me feel
geliebt, wie vorher niemand hat es hingekriegt.
Have you noticed how I look at you?
Are you feeling what I feel?
Let me tell you, what a cute
Language you’re teaching me…
Each and every day here feels like
Years… how
Long it took before you came, yet for-
Ever I would wait!
Sofia Rainho
Porto, 22 de setembro de 2024 –
Primeira semana de aulas. Sabe bem voltar a esta rotina de estudante, sem estar a cada final de dia fatigada e a sentir-me desanimada por ter que acordar cedo novamente no dia seguinte. Sabe bem ter esta independência.
Tenho saudades das pessoas que conheci nestes dois anos da minha vida e que, passando tão rápido, foram tão determinantes para me conhecer realmente. Agora sei de uma forma mais concreta e satisfatória como quero realizar os meus sonhos, isto é, viver.
Tenho lido muito pouco, e isso nota-se. Quando começo a ler alguma história nova, rapidamente me distraio e foco a atenção noutro qualquer estímulo. A dança ajuda-me a ter uma melhor noção das minhas capacidades, a concentrar-me em diferentes partes do meu corpo ao mesmo tempo e a perceber quais são os meus limites. Sou feliz quando sinto a música e danço.
Mas o pior de tudo é mesmo que não me respondas. Que fique à espera da tua resposta por tanto tempo. Sim, sou paranóica. Todos os dias são bons dias, porque te tenho a ti atrás de um ecrã. Quanto tempo durará? Será que esta relação é assim tão frágil quanto parece? Tenho saudades de te ver, de te sentir, de que olhes para mim e me vejas. É tão difícil que aconteça, mas, quando acontece, esqueço-me de tudo o resto. Isso é bom, certo? Obrigada por existires e me ensinares a viver. Tenho saudades tuas.
E, quando finalmente me respondes, como reagir? O que é que eu faço com isto que sinto? Como voltar a viver, a sair desta penumbra de pensamentos contraditórios? Basta que me digas que estás bem e eu fico melhor. Por que é que é tão difícil viver?
Sofia Rainho
Lisboa, 20 de maio de 2024 –
Há uns meses que não me surgia esta urgência de escrever e tirar a pratos limpos algo que me mói a cabeça. Infelizmente, tudo isto de bom começou à noite. Quem diria que seria tão libertador.
“E porquê?”
Foram perguntas que me despertaram ainda mais curiosidade por aquelas pessoas que eram tão pequenas para mim ainda.
“E qual o perfil das pessoas especiais?”
Aí comecei realmente a duvidar se não duvidava de menos, quando muitas vezes penso que os meus pensamentos são demais.
“Sentes-te muito sozinha.”
Aqui já só queria chorar, sozinha no meu quarto, como agora, escrevendo isto, começo a chorar.
“Sabias que chorar é muito bom?”
Sim. Talvez num tempo e espaço, sim. Mas não logo antes de comer. Não logo depois de me fazerem pensar e questionar e duvidar tudo o que sempre quis deixar para trás.
“Foste oprimida?”
Não.
Porque sei que fui, mas depois de o ser só quis olhar em frente. Quando se escolhe amar em vez de odiar, segue o desprezo, mas aí só faz falta ignorá-lo. Aprendi que tenho fragilidades, mas que todos as temos e que, respeitando as dos outros e apercebendo-me disso, é mais fácil ignorar a opressão. Dar a outra face. Deixar que me vejam indefesa e chorar quando isso acontece. Por dentro, surge uma força empoderadora, empedrada, encostada ao coração e à garganta, que cresce pelo eu adentro e aí se instala. Que lateja, que nunca se vai. Nem se esvai.
“Qual foi a coisa mais corajosa que fizeste?”
Quando alguém morre, essa força destrói tudinho por dentro. É catártico.
Ou talvez nem seja bem assim. Talvez a opressão apenas me tenha corroído. Nesse caso, prefiro que me destrua a não sentir nada. Significa que vivo e que não vive outra por mim.
“E a mais rebelde?”
Dormir ao relento. A chover, sem poder entrar em mim, perdida na noite no desconhecido jardim das tentações, no fundo da rua que sobe, sobe e não desce, desce, desce mais.
Ou talvez tenha sido imaginar ser mil e uma personagens (ou será mil e um personagens? – talvez dos poucos substantivos portugueses com curiosamente ambos géneros corretamente atribuídos) ao ler mil e dois livros na minha infância de mil e três décadas.
E imaginar o que é ser feliz. E pensar tantas vezes nisso. Eu sou feliz? Quero ser feliz – o que é ser feliz? E com as inquietações que surgem na caminhada, na rua, de tarde, ao sol, pensar… eu sou diferente? Mas porquê?
E só perceber meia década mais tarde, dentro de quatro paredes pesadas, escuras, apagadas, sufocantes, negras, com uma luzinha de fundo… Porra, eu sou isto? Que porcaria é esta?
E, mais tarde, há uns meses atrás, num exercício de interioridade, de escuta interior, de sentir o meu “eu” interior, de acariciar a criança que está dentro de mim, de dizer-lhe que gosto dela e que a amo… – as lágrimas turbarem não só os meus olhos… mas todo o meu ser… porque não consigo dizê-lo, porque não consigo senti-lo… será que não me amo? Será que não me sei amar?
Será que todas as proibições me fizeram olhar mais longe do que devia? Será que descurei as minhas carências, achando que o amor próprio viria ainda que não o cuidasse? Será que cometi esse erro de afundar-me na mais cómoda e superficial das emoções?
Sofia Rainho

Lisboa, 13 de março de 2024 –
Para me fazer
em ti habitável,
………. já não te trocaria:
a confusão sonora
………. que o teu avião
sabes que me faz;
a confusão palpável
………. que a tua escola
sabes que me faz;
a confusão visual
………. que a tua multidão
sabes que me faz;
a confusão olfativa
………. que o teu escape
sabes que me faz;
………. Já só trocaria
a confusão gustativa,
– ou silêncio agora –
………. que a ausência
………. da música dela
nem sabes a falta que me faz.
Sofia Rainho
Lisboa, 31 de janeiro de 2024 –
É estranho sentir-se uma estranha na própria terra. É estranho sentir-se de fora quando se diz que se é de dentro. É estranho que eu oiça a cadeira na sala a chiar, os talheres a bater no prato, as vozes de quem está enamorado e o chão a ranger debaixo dos pés deles – mesmo estando no quarto, sozinha, porta encostada, fones de cabeça com a música no máximo. É estranho que tudo isto me incomode.
Digo que não sou feliz em Lisboa a quem mo pergunta. Digo que quero mudar de cidade porque aqui tudo é maior, mais confuso e barulhento, cheio de pessoas. Digo também que o curso me faz sentir inútil, que as pessoas me aborrecem e que me sinto sozinha.
Mas a verdade é que aqui encontrei verdadeiros amigos, daqueles que sei que duram a vida inteira. Mas a verdade é que nunca fui mais independente do que agora, e sempre o desejei ser. Mas a verdade é que não aproveito tudo o que esta cidade tem para me oferecer, seja em cultura, seja em oportunidades de conhecer tanta gente e tão diversa. Mas a verdade é que cada vez mais me sinto feliz.
E enquanto me disserem que vou ficar aqui para sempre, quero fugir daqui para fora. E enquanto assumirem que Lisboa é uma cidade com futuro e para gente que quer um desses brilhantes, duvidarei dos potenciais caminhos que me oferece. E enquanto me lembrar de ti, naquelas tardes de sol molengo, saberei que não sou a mesma sem estares aqui.
Obrigada por ensinares que o dom da vida não é valorizado o suficiente todos os dias. Sou feliz? Sou, feliz? Sou feliz. Sou. Feliz.
Sofia Rainho
Lisboa, 5 de janeiro de 2024 –
Espreguiço-me e vejo atada à minha a tua mão.
A mim voltam todos aqueles momentos que, passados, estão ainda perto da minha memória a curto prazo. Não me beijaste, mas abraçaste-me. Não me olhaste com paixão, mas apertaste a minha mão toda a noite, e só para que eu não me sentisse só. Só hoje valorizo esse ato de amor. Só hoje vejo esse teu instinto tão protetor, esse que não compreendi no momento, nem muito depois. Por todos os momentos nos quais não estive lá por ti, era meu dever assentir com tudo o que dizias, seguir-te e nunca te perder de vista. Para te poder chamar “amiga”. Para te poder chamar algo e estares lá. É minha obrigação cuidar de quem me quer bem.
Mas o dia nasceu. E, lá de fora, em vez de surgir a luz do sol a refletir no mar, saiu da rua um tempo nublado que turba a minha mente e me faz sonhar acordada. Agora, sim, vejo-te. Vejo que sempre me querias ter junto a ti, que me chamas e a chama fica acesa. Depois, as chamadas. Ligas-me. Falamos. Acaba a chamada e há tanto por dizer. Ligo-te. Não atendes e não há nada por dizer. Será que agora já me atendes? Só quero ouvir a tua voz. Que perigoso é pensar.
Este pressentimento que me invade é mais forte do que o normal. É tão mais forte que sou capaz de agir para que se cumpra, mais do que esperar para ver o que acontece. É peculiar e familiar ao mesmo tempo. E à família nunca se nega nada.
Sofia Rainho
Lisboa, 18 de novembro de 2023 –
Manhã de novembro
Caminhando no nevoeiro cheio de luz
Em Portugal trocando mensagens em inglês com um japonês.
Pensando na vida cujo fim encontra a gente.
O vento incomoda o nariz;
Mas a mente vagueia
nos veios da memória.
Sofia Rainho
Lisboa, 30 de outubro de 2023 –
Eu nasci do vento e da espuma do mar. As memórias de uma infância prolongada levam-me a pensar-te. Nunca to disse, mas apaixonei-me pela tua ilha antes de me apaixonar por ti.
Todos os dias passo por lugares que me lembram das tuas feições, lugares onde seríamos felizes, juntinhas, talvez. Penso naquelas tardes em que nos reuníamos lá em casa e ficávamos só a existir, a partilhar do mesmo espaço, a discutir guerras sem sentido, cada uma para cada lado…
Até te conhecer, eu odiava Lisboa. Mudaste a minha abertura a esta cidade de sonhos desfeitos e beleza camuflada. Lembro-me da tua expressão – da desconfiança que se foi esbatendo na virtude da caridade –, mas sobretudo da música, de comunicar para além das palavras. As guitarradas nunca mais soaram iguais. Comprometeste, como outrora outra o já fizera, o meu amor incondicional pela música, pelo roçar inconsciente das cordas e pelo sentir os dedos dançarem sem destino em busca da harmonia. E a responsabilidade é minha e só minha.
As noites passam por mim sem eu passar delas. A tua indiferença dói-me. Agora, a única coisa que é boa e que me faz lembrar-me de ti é Lisboa. Agora, tenho de aprender a amar esta cidade que me oprime pela falta de paz e esperança num futuro melhor. E é por isso que muitas noites me volto para ver a tua varanda. Quero chegar a casa, mas os meus pés conhecem melhor o caminho até ti. A casa.
Esquecer-te é demasiado. Lembrar-me de ti é perigoso. Viver é encher a memória de novo para que a recordação de ti se afogue nos traços do passado.
Sofia Rainho

ou Início da história que nunca terminei
Figueira da Foz, algures em setembro de 2023 –
Da janela do quarto, ela vê o mundo. Fechada em casa, sentada à secretária, costuma olhar para fora e sentir o sol penetrar nos olhos e na cara e na alma. É então que fixa a atenção no grande, enorme, gigantesco pinheiro manso mesmo à sua frente. Frondosos braços os que abraçam os melros que poisam e aí fazem o seu lar. Bela é a cúpula que protege a terra da chuva e do vento.
Vagueiam agora os olhos pelo meio envolvente. Sente-se a vida que brota deste amanhecer sereno. As persianas sobem. Pequenos pássaros esvoaçam e cantam alto a alegria da alvorada. A vizinha cusca aparece à janela. A luz invade o humilde quarto.
Mas o que chama a atenção é a plaquita que surge à esquerda no horizonte. É aqui que começa e acaba a nossa história. —
O jardim serena as ansiedades momentaneamente. Ela acaba de saber que os grandes medos dos sonhos se tornam afinal realidade. Vão mesmo vender a casa. O espaço da memória. A memória do espaço que se desvanece no tempo. O jardim nunca mais será o mesmo. Hoje não é o mesmo, apenas na memória permanece. Nos sonhos dela.
É como um ombro que dói no momento mais inconveniente… ou o café, que é bom para acordar, mas vicia e cujo sabor enjoa, mas cujo efeito é necessário. Queremos sempre o que não temos. Como a primavera. Por ela esperamos… ela vem… e queremos passar à frente, chegando ao verão… e depois queremos voltar de novo à primavera. Assim é a moral da vida.
Sofia Rainho

Lisboa, 17 de agosto de 2023 –
Ao ouvir a música, o meu olhar suspira. Para sempre vai ficar ligada a ti esta melodia no mais profundo do meu ser. Sinto em mim dentro esta torrente de emoções. Assoma-me primeiro um entusiasmo por me lembrar de ti. Depois o meu olhar endurece de saudade e dor até me afundar na tristeza de estarmos agora tão longe uma da outra. Será que te lembras de mim tanto quanto eu me recordo da nossa história?
Há coisas que não entendemos nem nunca iremos perceber. Por que me negas esta possível felicidade? Amo-te mas nunca to disse. Sou carente de ti. Em vez de chorar porque te perdi, choro porque nunca te tive, porque nunca te olhei nos olhos, esses olhos intensos de avelã nessa cara tão de menininha cuja presença na minha vida eu sinto tanta falta… e não te disse que preciso de ti para ser feliz. Que me fazes melhor. Que me tratas bem e eu agradeço esse carinho.
Nunca saí de mão dada contigo para visitar todas as bibliotecas de Lisboa que a mim tanto me fascinam. Nem paramos num jardim para comer um gelado e olhar a outra e sorrir… ou beber uma jola e falar sobre a vida dos outros. Esse sol que eu tanto via em ti, no teu sorriso e no teu olhar era afinal de pouca dura e explodiu numa nesga de tempo. Toda a vida que então existia nesse planeta que era só nosso deixou de acontecer, fazer-se e realizar-se. Tornou-se num nada que fora de onde viera.
Fiquei só eu, escondida debaixo de algum mar, sufocando e pensando que me virias buscar, salvar ou só falar comigo. Definho ainda nessas profundezas, arrastando-me cada vez mais para baixo, para a escuridão eterna da nossa existência conjunta.
Não sei se esperavas este efeito, mas juntas construímos esta história. Ou talvez não. Porque não és mais, estou só eu, sozinha no breu da minha própria inércia.
E a esperança é a última. Porque eu já me morri para nós.
Amén.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 5 de julho de 2023 –
Era uma vez um mundo. Um mundo diferente, é certo; um mundo de eventos organizados de forma diferente.
Neste mundo diferente, cada um é consciente de uma característica diferente do que, neste mundo, consideramos normal. Essa característica não é a idade, o mérito ou o dinheiro. Não é o poder ou a altura, o peso ou a largura de cada um. Esse atributo é a força que cada um consegue suportar.
Existem vários sistemas para a medir. Pode-se fazer uso do quilograma, do volt, da vontade ou de outros sistemas de medição. Pode ser peso físico ou outro. E toda a gente tem um mesmo objetivo comum: chegar ao fim do dia carregando a maior quantidade de peso possível.
Quando começam o dia, no local de partida da jornada apresenta-se a gente agrupada em classes distintas.
Em primeiro lugar, há os que conseguem suportar um enorme peso. Como se sabem acima da média, conservam uma auto imagem que passa impune aos poucos deterioramentos interiores.
Depois, há os que se consideram mais que os outros e acabam por perder o fôlego a meio do caminho. Mesmo descansando, são incapazes de continuar e ultrapassar os que entretanto já os passaram. Ficam a ver navios, como Napoleão no Tejo.
De seguida, aparecem os que, em conjunto uns com os outros, são capazes de transportar grandes pesos, auto instigando-se votos de coragem. São os que conseguem melhor conservar um estado de espírito constante e chegam ao estado de êxtase ao final do dia. Sabem que, com a quantidade certa de energia e entusiasmo, o esforço basta para finalizarem a sorrir entre eles, e a perspetiva de voltar no dia seguinte faz os seus olhos brilharem.
Logo no fim chegam os que são mais fracos, que passam a jornada a dar ânimo e ajuda aos mais fortes ou medianos. Estes perdem assim a própria força de vontade, oferecendo a pouca força física e ainda massacrando a força interior, dada a todos na mesma medida.
Quem me dera a mim viver neste mundo, guardada de qualquer outro sentimento ou circunstância. Quem me dera a mim nem conseguir pensar numa história assim, ter sequer um pensamento divagante. Quem me dera não saber ainda como escrevê-lo, descrevê-lo, como enquadrá-lo em palavras de forma esquemática e mecânica. Quem me dera ser por ser, estar estando e sonhar acordada a cada instante à espera de acordar disto que é a vida. Quem me dera dar dando a dor ao dador da dádiva que é a vida. Quem. Quem?
Sofia Rainho

Lisboa, 11 de junho de 2023 –
Às vezes a escrita liberta mais facilmente as emoções que sentimos.
Quero começar por pedir-te desculpa por essa noite fria em que nos aquecemos debaixo dos teus lençóis. Nunca devia ter confiado profundamente nos meus instintos sem me preocupar com a boa relação de amizade que cultivávamos. Espero que algum dia possamos continuar a ser amigas sem que essa memória seja uma constante desagradável do que o ímpeto carnal é capaz.
Existe uma verdade inegável. Amo-te. Amo-te como amo o sol e o mar porque sou uma apaixonada pela vida. Amo-te como amo Deus que é quem eu vejo todos os dias e me faz sorrir. Amo-te porque aprecio a companhia de mulheres bonitas e com inteligência. Amo-te como uma boa amiga que és e, por isso, por vezes é difícil para mim compreender as barreiras emocionais que devem reger o bom entendimento entre pessoas civilizadas. E, mesmo assim, continuarei a amar-te, ou pela menos essa tu que foste algum dia, pois essa imagem que tenho de ti está já cravada na minha memória.
Apaixonei-me por ti. Talvez naquela noite em que por ti esperei no restaurante nepalês, ansiosa que chegasses. Talvez nessa mesma noite quando mais tarde jogámos snooker e ganhámos. Dizem bem que quem tem sorte no jogo tem azar no amor. Quem sabe se foi naquele dia em que fomos juntas às compras. Ou talvez me tenha perdido de amores por ti nessas noites de setembro à luz da lua, a tocar e cantar na varanda que nos une. Aber jetzt habe ich Liebeskomma. You’re making me mad. Se eu morresse amanhã, será que deixarias de ser a pessoa mais indecisa que conheço?
Para o que der e vier, és já parte da minha história. Por isso, quando precisares de um ombro amigo, liga-me. Há demasiadas almas perdidas à procura de um rumo e que não têm quem lhes dê a mão.
Por agora é tudo; mas quem sabe se amanhã estas palavras não são vendidas a peso de pó. Teremos que esperar para o ver.
Da tua,
Sofia
Lisboa, 08/06/2023 –
When you start loving someone, that love never goes away. Even thought they say they have been over you or that they don’t know what to do, you will always love them. Even though they hurt you, you will still love them. Even though they’ve dumped you or forgotten you, you will keep crying over losing them. Because that is what being human entails. And there you go suffering again, at the hands of the most powerful being there is. The women. Or the wine.
Sofia Rainho
Figueira da Foz, 23 de maio de 2023 –
O Mensch! Gib acht!
Was spricht die tiefe Mitternacht?
„(…) Tief ist ihr Weh -,
Lust – tiefer noch als Herzeleid:-
Weh spricht: Vergeh! (…)“
Friedrich Wilhelm Nietzsche, Also sprach Zarathustra
Hoje lembrei-me de Ti. Estávamos a tocar e a cantar ao som da empatia que parecíamos ter. Ao longo da minha vida, se pensar em perspetiva, há vários momentos que me fazem sentir, agora, usada. É um assunto que me desconforta; se penso neles, fico sem vontade de procurar a felicidade vital do dia-a-dia. Tenho pouca paciência quando penso que abusam das minhas capacidades. Dói. Aqui, por dentro, bem lá por dentro de mim. Rasga-se-me o orgulho e a confiança. E o cheiro de deliciosas palavras esvoaça para fora do meu toque visual.
Será que me ouviste quando Te falei? Ou apenas ouviste aquilo que fui dizendo? Por que é que, falando a mesmo língua, parece que não partilhamos da mesma linguagem? Afogo-me neste sentimento. Que é aquele que parece que Tu não tens. Dizem que falar de um assunto alivia, mas parece que este só me afunda cada vez mais naquilo que tenho que enfrentar cada dia. Quando me abriste a porta nem sabias – nem eu sabia, mas talvez pudesse já desconfiar. E continuas a não saber. Porque a vida são dois dias, mas afinal já só há um: o terceiro.
Não me considero muito inteligente, mas, nos meios em que me envolvia, já fui considerada acima da média. Claro que nada disso interessa quando, numa visita ao museu, perguntaram ao grupo: a escravidão é humana ou desumana?
Pensei numa resposta inteligente. Se errar é humano, pode-se dizer então que algumas características negativas se associam ao termo “humano”. “Humano” é tudo o que possa ser associado ao ser humano.
Ao responder “humano”, pensei que a minha resposta estivesse certa. A senhora olhou para mim espantada e pediu que me justificasse. Expliquei que, se a escravatura existe no mundo e acontece entre humanos, então o mais natural é que seja humana. Se fosse desumana, então não poderia de forma alguma acontecer entre seres humanos. A senhora desconsiderou o meu discurso e continuou a falar sobre a escravatura, que para ela é desumana. Eu continuei a pensar que seria melhor que fosse desumana, mas infelizmente não é. A escravidão é humana, não é desumana.
E pensei para mim que, afinal de contas, posso sempre escrever e discorrer sobre a minha opinião. As palavras doem muito. Mas o que dói mais ainda é a falta delas. Isto leva-me a uma discussão que tive um dia com os meus pais. Falávamos de bullying, que eu pessoalmente sempre achei um termo feio, e eu decidi expor a minha opinião de forma sensata. Por isso comecei com: “bullying é só uma palavra”. Como não me deixaram continuar a minha ideia, fui sentar-me sozinha a escrever. E escrevi:
“Bullying é só uma palavra. Uma palavra que quer dizer ódio, raiva, sentimentos reprimidos... Que se traduz em relações despedaçadas, vidas mudadas, tristeza, revolta. Uma palavra que destila de todo o mal que alguém pode desejar a outra pessoa. Se pensarmos em todas as guerras que já existiram, em todas as batalhas que já se travaram entre irmãos e pais e tios, chegamos sempre à mesma conclusão. Que a incompreensão e o ódio do ser humano se sobrepõem. E que, por isto acontecer, se geram consequências sombrias, das quais, mais tarde ou mais cedo, nos iremos arrepender.”
Se choro porque sei que um dia vou perder a minha mãe? Sim, choro. Se choro porque os passos que dou em direção a cada relação afetiva que tento formar se desvanecem em nevoeiro? Claro que sim. E não tenho problemas em admiti-lo. Mas é ainda difícil para mim admitir que na escola chorava por raiva de me gozarem. Não aconteceu muitas vezes e estou segura de que, se passasse a dar-lhe mais atenção, tomaria outras proporções. O apoio e o amor que tinha em casa foram suficientes para achar que algumas quezílias com colegas eram incontroláveis e ultrapassáveis. Também chorei porque parti sem querer os óculos de uma colega e ela me maltratou verbalmente, e no ano seguinte passamos a ser melhores amigas. Bastante improváveis, porque ela era muito “fixe” e eu era uma “nerd”. Claro que agora não falamos, mas tenho a certeza de que ela continua a ser melhor aluna a matemática do que eu.
Sofia Rainho

Porto, 8 de maio de 2023 –
Porto de abrigo
O meu não és já mais. És
Repleto de memórias
Tragicamente passadas perante
O teu luar.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 23 de abril de 2023 –
“(…) Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
(…) Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.”
Martha Medeiros, jornal “Zero Hora”, 01/11/2000
Uma noite, eu tive um sonho. Sonhei que uma racha se abria na campa dos meus pais. De dentro saia uma luz cavernosa e uma música intensa. O ar encheu-se de odores enxofrentos e os meus olhos não aguentaram mais. Desmaiei.
Quando acordei, procurei por algo na escuridão. Algo que não sentia, mas que via claramente no meu interior, encarnado na minha existência. Foi uma surpresa estranha, como ler uma página de diário sem data nem rubrica que se encontra dez anos depois de a escrever; ou como descobrir um papel de parede por baixo de outro quando se renova uma casa…
Não sei bem quando comecei a procurar por esse algo. Talvez tenha começado nessa noite luminosamente escura, debaixo desse céu escuramente estrelado. E talvez esse algo não exista, afinal. Pois talvez algo comece com perguntas e não acabe com respostas. Em quem confio realmente? Apenas no romeiro – isto é, em ninguém? Não há algo em mim, nem nos meus sentimentos? Não confio no amor?
Amar é simplesmente belo. É todo um lindo estilo de vida. Não é um algo puramente sexual, mas sobretudo um algo acompanhar, um algo estar. É pensar apaixonadamente numa união sem pés, nem cabeça, nem falta de sentido. É descobrir a cada passo uma forma poética de fazer as coisas. Amar não é comer comida vegan uma vez; ou várias; é para toda a vida e não só alguma.
Desde sempre que confio na atração, no olhar do momento. E, no entanto, as crenças são mais perenes que esta folha de papel. Para amar é preciso confiar; pois algo no amor existe acima de todas as coisas visíveis e não visíveis. Então, diz-me, sem medos, como um dia Perguntaram a Pedro: Amas-me?
Sofia Rainho
Lisboa, 28 de março de 2023 –
«Portanto, quem ouve estas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha.
Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática é como o homem sem juízo, que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, e a casa caiu, e a sua ruína foi completa!»
Mateus 7:24-29
Estar vivo é uma coisa maravilhosa. Às vezes, quando me lembro de ti, sorrio. Para que usas tanta maquilhagem? És linda e (e)s(t)ou carente, posso beijar-te?
No outro dia, pensei em ti. Quando falo comigo mesma, por norma faço-o noutras línguas, para tentar exprimir-me de diferentes maneiras. E saiu-me, em voz alta, como num sopro, uma expressão em inglês. “I love you”.
Caiu-me tudo. Tive um ataque de fúria. Comecei a chorar, queria gritar, sozinha, no meu quarto, e dizer às paredes o quanto te quero e preciso de ti. E continuei a dizer (cá para fora) que te amo, até simplesmente me deixar levar pela vontade de chorar e pelo desejo de te apertar junto a mim, como fazem as pessoas apaixonadas.
Mal acabou este turbilhão de sentimentos, senti como um alívio. Nunca me tinha apercebido do quanto gosto de ti. Nunca tinha chorado por um nós que nunca existiu. Mas a partir desse momento, o paradigma mudou. As palavras têm mais força do que aquela que nós lhes damos. É curioso.
Pouco mudou, na verdade. Continuo a ter vontade de chorar quando penso que te amo. Não quero saber que não seja saudável, só quero que nunca acabe. Quero ser como o Ricardo Reis, sentado com a Lídia, à espera que passe a água, e não me arrepender de nada porque não enlaçámos as mãos. Espero que seja junto ao rio Mondego. Deixemo-nos estar assim, como nêsperas: deitadas, caladas, a esperar o que acontece… Porque quando vou deitar-me é assim que fico, apenas e só mirando o teto, vendo nele surgirem as manchas de tempestade que turbam o meu espírito.
Já te disse que gosto de chorar? É das reações mais libertadoras, mais vergonhosas, mais bonitas que um ser humano pode ter. Parece que descrevo os sentimentos que sinto por ti. Talvez por essa razão choro quando digo (só para mim) que te amo. Se Lisboa durante o dia é um deserto abrasador, à noite é um esconderijo de amantes, sedentos de gargalhadas de amor que aquecem a alma arrefecida pelo vento gélido da mudança.
Sofia Rainho
Lisboa, 21 de março de 2023 –
A vida é como uma peregrinação. Quando se caminha para atingir um destino, também não se entende bem o que se faz. Apenas se caminha, esperando encontrar nisso algum sentido. Esse sentido só aparece depois da experiência chegar ao fim. Será que é preciso chegar ao fim da vida para a valorizar?
Às vezes penso que os seres mais egoístas são as crianças. A verdade é que são os seres mais inocentes e, por isso, não se apercebem das necessidades dos outros. Crescer e chegar a ser adulto é perceber que a responsabilidade social cabe a todos e cada um, incluindo o próprio.
Não sei a partir de que momento comecei a apreciar demasiado a tua existência e presença. Para mim, aqui, és casa. Uma casa não é um edifício, é uma ideia, uma construção social e emotiva. É um farol, uma rocha basilar – algo que está sempre presente, ainda que não pensemos muito nisso. O problema é que, ultimamente, penso muito em ti. Demasiado, como aliás já referi. Tenho saudades tuas a partir do momento que sais. Quero fugir de ti quando só estamos as duas. Fazes-me sufocar por dentro quando vejo que me olhas de longe ou através de um vidro me sorris. Achas mesmo que se me olhares assim eu sou capaz de não pensar em ti todo o dia? Impossível.
Bem, estou para aqui a escrever, mas já nem te deves lembrar de mim. E não há problema – porque nunca irás ler estas palavras. Sou cobarde, sim. Tenho que me proteger, sim. Não me amas, sim. E está tudo bem. Talvez sintas alguma atração por mim, e está tudo bem com isso também. Queria fugir deste vai-não vai, porque eu nunca vou (não tenho coragem!) e tu provavelmente neste aspeto és igual a mim. Ao menos nisso.
Nunca tive reações corporais tão confusas como contigo. Queres fugir comigo? Não tenho muito para te oferecer, mas prometo continuar a olhar para os teus olhos, a sentir o teu corpo roçar no meu, a abraçar o teu corpo quente e reconfortante. Não me importa que tenhas falado de nós. Não me importa que isto que aconteceu entre nós não(?) seja um segredo. Importa-me que queiras ter outros segredos com outras pessoas, porque tenho ciúmes, tenho inveja do que não aconteceu ainda – mas que sei que ocorrerá. Perdoas-me? Não quero causar-te nenhum mal, mas também não gostava de me sentir mal. É a vida!
Sofia Rainho
Lisboa, 20 de março de 2023 –
Não sei como aconteceu,
Só sei que aconteceu.
E que nesse momento
Era o que mais queria eu.
Quis gritar a todo o mundo,
Escrever mil canções.
Pedi para um beijo te roubar
Mas não quiseste.
Agora, sorris para mim,
Olhas para dentro dos meus olhos…
Vês a minha alma
E eu sofro.
Pediste-me espaço, e eu to dei:
embora não quisesse, de pensar em ti deixei.
A minha razão diz que não és para mim, mereço mais;
Mas eu não quero mais, eu só quero ter-te a ti
Nos meus braços
E sonhar,
A dormir ou acordada
Ou embalada
Contigo.
Isso sim
. talvez um dia, com outra tu .
Sofia Rainho
ou Carta que te escrevi numa tarde nublada e nunca tive a coragem para te entregar (e que aliás queimei)
Lisboa, 7 de março de 2023 –
Os dias cinzentos são sempre os mais difíceis. Não sei bem o que te escrever, mas nalgum momento desde a semana passada pensei que escrever-te seria uma boa ideia. Gosto de escrever, mas as palavras escapam-se-me, prendendo-se à descrição daquilo que já é conhecido. Contudo, quando estou contigo, tudo o que sinto é-me desconhecido e difícil de descrever. Não sei a razão, mas não consigo deixar de sentir-me feliz quando te vejo. Os meus pensamentos ficam a mil. Fico sem jeito e com vergonha, como se guardasse um segredo e ao mesmo tempo o quisesse contar a toda a gente. Fico confusa com as tuas indecisões.
Bem sei que esta pode não ser a tua realidade, mas quando me olhas nos olhos e sorris para mim, ganho uma confiança ilimitada e alimento a minha imaginação. Quero ter contigo uma aventura, partilhar experiências, olhar para um espelho e não me ver só a mim, mas ver-nos às duas…
Não sei o que sentes, até porque eu própria tenho dificuldade em saber o que sinto – mas preciso que saibas que a minha porta vai estar sempre aberta para ti, aconteça o que acontecer. E eu vou continuar aqui, à tua espera para conversas sérias ou malucas, sóbrias ou entornadas, confusas ou sem sentido – porque acredito que o sentido desta vida (se é que ele existe) está em valorizar as coisas pequenas, conquistas do dia-a-dia que nos fazem sorrir e sonhar e desejar continuar nesta caminhada desafiante que é ser-se human@. O tempo tudo cura.
Lá fora chove. Está frio. Tenho medo, mas dentro de mim ecoam os cheiros e os suspiros. Acredito que a honestidade me ajudará a entender o futuro, mas preciso da tua ajuda.
Um abraço,
Sofia
Lisboa, 24 de fevereiro de 2023 –
Viver é sonhar. A vida dava um sonho.
Por isso dói tanto quando chegamos perto de acordar. É o sair da inocência. Dói sofrer com a morte de um irmão, de uma mãe, de um amigo. Dói que não acabe a vida também para nós. Dói saber que acordar é viver para a morte. Dói ler sobre o Holocausto, sobre a morte, sobre notícias que nos chegam de um tão longe que se faz tão perto.
Durante algum tempo, pensei que escrever me ajudasse a entender o que acontece à minha volta — mas escrever apenas me ajuda a racionalizar o que acontece. Escrever distancia-me do contacto experimental e afasta-me da realidade verdadeira. Essa que, se calhar, não existe. Escrever não me deixa viver. Prende-me às palavras, que são demasiado pequenas para descrever a dor que o ser humano sofre com a perda de um ser querido que se vai. Mesmo procurando noutras formas de comunicar em idiomas diferentes, as ideias noutras línguas continuam a ser complexas demais para que se possa descrevê-las. A vida é tão grande e nós tão pequenos, que – apesar do que diz um certo pessoa – não vale a pena.
Aprendi que quase sempre é melhor não compreender. Não é possível compreender tudo na vida. É difícil agradar a todos. É difícil perceber o equilíbrio entre a morte e a vida. É difícil entender a poesia. Entender os outros. É difícil desafiar o quotidiano de todos os dias para que não nos sintamos presos na mesma rotina durante toda a vida.
É mais fácil viver acomodado. Esta não tem de ser uma palavra conotada negativamente. Acomodado significa feliz, despreocupado, sem problemas; e isso só se faz quando não queremos saber, quando não nos interessa conhecer, quando não podemos compreender, nem perceber, nem entender, nem desafiarmo-nos. Significa que ser ignorante é o melhor que há na vida. Não saber é que nos salva da dor e do sofrimento. Ser indiferente é a melhor maneira de viver. Porque viver é morrer e a morte é a vida. Quer isto dizer: assim como um grão de trigo tem de apodrecer e morrer na terra para dele brotar a vida e dar fruto, também nós vivemos rodeados de morte até finalmente descobrirmos que esta faz parte da vida. Temos de morrer para viver. Como?
Morremos lentamente para o passado. Apesar das lições preciosas que a nossa história nos deixa, com relativa facilidade esquecemos as pessoas que nos marcaram, os acontecimentos que iam ser memoráveis, os lugares onde um dia fomos felizes ou onde chorámos amargamente… Só quando voltamos a esses lugares, reais ou imaginários, temporais ou espaciais, é que nos apercebemos que os ultrapassámos e estamos a viver no presente. Depois de o momento passar, já morreu. Tudo o que inicia, tem um fim.
Quando tinha dezassete anos, escrevi um texto sobre a minha visita a Hiroshima aos quinze anos. Foi uma revisitação com um significado maior porque entretanto havia aprendido mais sobre o que é a guerra. Ainda hoje me choca; mas sem dúvida que escrever e partilhar algo sobre esse sofrimento me ajudou a ultrapassar alguma da dor transmitida pelo testemunho das vítimas do terrível ataque nuclear. Se renasci com essa escrita? Seguramente que não, mas algo no meu interior transformou o inexplicável em palavras que pudessem chegar a quem o lesse.
Antes de algo importante acontecer, é comum ter algum tipo de pressentimento. Quanto maior a experiência de vida, maior é a segurança que se tem de como funciona a realidade. Por vezes, este pressentimento surge bem do fundo da barriga, numa sensação de impotência. Outras vezes, é como uma ideia que surge num flash e logo a seguir se começa a desvanecer, voltando repetida e aleatoriamente. Contudo, nem sempre isto acontece. O melhor é esperar que o vento passe; e que nos leve atrás daquilo que tiver de acontecer, sempre prontos para o que volver e/a doer.
Sonhar é viver. E os sonhos dão vida.
Sofia Rainho
Lisboa, 23 de janeiro de 2023 –
Intro (dedilhado)
Lá Sim Fá#m Mi
Quando pensas que o futuro
Não tem nada novo a dar
Nada podes controlar
Nem essa dor compreender
Vives só mais um momento
Dia a dia a conquistar
Até que chega à memória
Essa mensagem de amor
Lá Ré Mi
Irmão, quero-te perto
A desordem continua
Mas encontro-te nesta estrada
Quero a tua companhia
Ré Mi Ré Lá
Ré Mi Lá
Chamo por ti, vem também
Nesta aventura comigo
Abre o coração e sorri ao novo dia
Sol Mi Sol Mi
Pois aquilo que vivemos
Traz-me sempre o teu olhar
Deixa-me ir na corrente
Contigo continuar
Tantos sonhos e surpresas
Encantamentos e espantos
Deixo-te nesta lembrança
E partilho a minha paz
Sofia Rainho
Ps. Peço desculpa pela voz, estava constipada.
Et super mortuo non incidetis carnem vestram neque figuras aliquas et stigmata facietis vobis
Levítico 19:28
Lisboa, dezembro de 2022 –
Esta é a primeira vez que escrevo no meu diário de bordo desde que estudo em Lisboa. Estou em luto. Embora continues viva, C, lamento saber que, para mim, morreste. O meu coração sofre pela tua perda. Amei-te. Deixei-te há quase seis meses e tenho a certeza de que agora já não és a mesma pessoa que amei. Tens que morrer em mim para eu conseguir seguir em frente.
Deixar o Porto e rumar a novos portos é difícil para mim. Todos os meus amigos e todos os lugares que tive a incrível oportunidade de conhecer durante os quatro anos em que estudei na Invicta são difíceis de esquecer. Não os quero esquecer, quero apenas guardar numa gavetinha dentro de mim e voltar a ela de vez em quando. É principalmente difícil porque sinto que te perdi para sempre. E é estranho ter que recomeçar.
Em julho, depois de te perder, voltei a ganhar o meu amor pela humanidade. Numa viagem de autocarro, conheci alguém muito interessante. Falámos muito sobre investigação porque ela era uma socióloga muito empenhada. Voltei a apaixonar-me pelos olhos de alguém, a focar-me na maneira de falar de certas bocas que, embora fechadas, me inebriam o olhar. Voltei a sentir algo bonito na minha barriga. Apesar de ela ser mais velha, era de uma simplicidade bela. Mãos pequenas e finas, pele envelhecida, disposição alegre. Mais do que uma vez apeteceu-me encostar simplesmente o meu corpo ao dela contra uma parede e beijá-la ardentemente. Amei-a naqueles momentos. Senti-me de novo em casa. Abri-me com ela e ela abriu-se comigo. Partilhámos cumplicidade. Não queria que a nossa conversa acabasse nunca e procurei sempre não alimentar os vazios e os silêncios dos intervalos do diálogo. É um sentimento impuro? Não sei, admito apenas que me senti muito bem. E espero que ela também. Depois, quando cheguei ao meu destino, cada uma foi para seu lado. Voltei a sentir esperança. Eu era outra vez feliz, muito feliz.
O primeiro terramoto da minha vida foi quando o P morreu. O P foi alguém que conheci quando fiz o Caminho de Santiago pela primeira vez, em 2018, com um grupo de jovens, a MarCha. Ele tinha 22 anos quando deixou este mundo. Lembro-me tão bem da noite em que descobri que se tinha suicidado como se fosse ontem. Foi no início de 2019. Tinha levado o meu pequeno Samsung secretamente para o meu quarto. Liguei o wi-fi do telemóvel e comecei a receber notificações do grupo da MarCha. A mensagem que me enfureceu não era explícita. Dizia algo como: “O P decidiu já não estar entre nós”. Chorei, quis gritar e não consegui, quis sair do quarto e abraçar os meus pais, dizer-lhes que os amava, que não os queria perder como tinha acabado de perder alguém que conhecia, que há pouco tempo eu própria começara a ter pensamentos suicidas e que não sabia o que fazer. Nunca alguém tão próximo de mim em idade tinha morrido.
A vida ensinou-me que as pessoas seguem em frente depois de saber das desgraças do mundo. Quando contei à minha mãe que o P tinha morrido e lhe pedi para ir ao funeral, ela recusou. Também não consegui ir ao memorial que fizeram no aniversário da morte dele. Quem me dera ter ido. Talvez me tivesse ajudado; não a esquecer, mas a respeitar ou mesmo a entender.
No mesmo ano, em novembro, uma menina que tinha conhecido no verão, num campo de férias para crianças carenciadas no qual fui animadora, também se suicidou. Nunca falámos, mas nunca precisámos de falar. O cabelo curto e o olhar disseram-me tudo para saber que tínhamos algo em comum. Fiz-lhe um barco de papel porque queria aproximar-me dela, dizer-lhe que não estava sozinha neste mundo e que está tudo bem em ser diferente, embora nem sempre seja fácil. Quis falar com ela e dizer-lhe que me sentia atraída por ela, mas que não queria aproximar-me porque não a conhecia bem. Ela pegou nesse barco de papel que eu cobardemente deixei atrás dela um dia (esperando que ela o encontrasse), escreveu o número de telemóvel dela e mandou-mo anonimamente. Eu sabia que era dela. Quando soube que ela tinha morrido, chorei. Senti-me de novo inconsolável, como se o mundo não entendesse que os jovens não querem viver e que algo tem que ser feito em relação a isso. Um ano depois da sua morte, liguei para o número que ela me deixou e alguém atendeu. Perguntei pela J, mas não a conheciam. E, depois disso, também eu segui em frente. Como toda a gente parece fazer quando um jovem se suicida.
Mais tarde, descobri que o Avicii, um DJ sueco muito conhecido, se tinha suicidado no dia 20 de abril de 2018. Ora, esse é o mesmo dia em que eu fiz 18 anos. Eu não sabia que ele tinha morrido, muito menos que se tinha suicidado. Fiquei chocada. Passei a contar isso às pessoas que conhecia, quando o momento o propiciava. Elas nunca me pareceram chocadas ao saber, apenas mostravam pena. Ele tinha 28 anos quando se suicidou. Eu agora tenho 22 e compreendo perfeitamente. O medo é o sentimento mais miserável que um ser humano pode sentir.
Foi para me lembrar das pessoas que perdi que tatuei o meu corpo. Gosto de símbolos e da força que eles têm para nos mostrar que pertencemos a um contexto do passado. Tatuei na minha carne o símbolo do Avicii para, sempre que olhar para mim ao espelho, ver em mim todos aqueles que partiram antes de mim, principalmente aqueles que o escolheram fazer porque eram demasiado grandes para o mundo aguentar com eles. Esta tatuagem traz-me à lembrança todos os sentimentos complexos e contraditórios que tive quando aconteceram estes momentos de revelação na minha vida, quando senti a minha história conjunta com o P, a J e o Avicii a terminar…
Quando alguém morre, a sua morte dá-nos vida. É-nos dado alento para viver melhor, para prevenir qualquer arrependimento que tivemos no passado; mas não devemos tentar entender o que aconteceu. Às vezes, basta aceitar que todos os momentos maus, tal como os momentos bons, fazem parte de nós. A nossa história não nos pertence; pertence sim a todos com quem partilhamos a vida. Essas pessoas vão sempre ter um lugar nas gavetinhas dentro de nós.
Ainda antes de te conhecer, eu já pressentia que a tua gavetinha, C, ia ter para sempre um lugar especial dentro de mim. Foste a primeira. E, por isso, se tu decidiste que a tua vida já não me pertence, quem sou eu para te contrariar?
Sofia Rainho

Porto, 29 de agosto de 2022 –
Es como el calor en verano,
es algo que está siempre ahí.
Me acompaña aún cuando no lo necesito,
me ensombrece la mirada
y, a pesar del tiempo que pasó,
me engancha la atención
tal y como tus ojos algún día lo hicieron.
Sofia Rainho

Porto, 7 de junho de 2022 –
Há muito, muito tempo, num dia de verão, quando os nomes ainda tinham um significado, nasceu uma criatura abençoada. De seu nome Diana, todas e todos louvaram a sua vinda ao mundo como um presságio de boa vontade do Universo.
A sua mãe, de feições delicadas, era filha de um nobre burguês – se é que tal associação pode existir – chamado Mário e de uma sonhadora professora, Mariana. O Mário herdou dos seus ascendentes os apelidos Abrei e Llemos, das grandes e longínquas terras da Itália e da França. Estes nobres nomes dizem tudo o que há para saber sobre este homem. Modesto e seguro de si, viajava frequentemente para fazer da sua casa o melhor lar da vizinhança. Tinha uma mercearia da qual cuidava de noite e de dia, o que muito lhe comprazia. O Mário era casado com uma senhora frágil, de olhar penetrante e apaixonado, uma tal Mariana de Mello e Cosmo que havia conhecido numa pensão num fim do mundo, num tempo demasiado antigo para que se conserve ainda hoje na memória das gentes. A madrinha do casal costumava dizer que a moça, desde tenra idade, era muito religiosa e agarrada aos mandamentos do Senhor. Mas a verdade é que se dizia que se haviam conhecido em idade tardia para namorar e casar.
Quando a Marianinha morreu, demasiado nova para que a família aceitasse de golpe a tragédia, o Mário decidiu comprar uma carrinha de caixa aberta. Dizia que queria ver o mundo, que não queria ficar preso numa realidade sem a palpabilidade do amor, porque o que sentira pela Marianinha eram emoções de verdadeiro calibre e agora não podia controlar a dor que a sua morte lhe causara. Quem o ouvisse, dizia com pena que o moço já perdera o tino e a confiança, e afirmava com convicção que às três filhas do casal certamente faltaria pouco para se tornarem ainda mais órfãs. Mas em socorro das meninas veio a família da Mariana, que era irmã de doze irmãos e irmãs, uns já mortos, outros há pouco nascidos – mas um total de doze partilhando a mesma consanguinidade. Nos tempos que correm, parece um número demasiado grande para que caiba tanta gente na mesma casa.
E assim foi que, acompanhadas pela família materna, as três meninas, órfãs de pai e de mãe, prosperaram na vida. A primeira, mãe da Diana e talvez de outros ou outras que ainda não nasceram, teria apenas dez anos quando a mãe falecera. Ainda assim, estudara com afinco e tornara-se professora. Mantivera a religiosidade intacta da mãe e a severidade trabalhadora do pai e, igualmente com idade avançada, casara-se com um moço já casado – algo que, no tempo dos meus avós (e menos no dos seus), jamais teria sido aceite. Chamava-se Raquel. A mais nova, a Maria, sempre alegre e sorridente, tinha apenas 3 anos aquando da desgraça familiar e mal se lembrava da mãe quando acabou os estudos em História pela Universidade de Coimbra, onde conhecera um rapaz com quem haveria de casar e ter três filhos. A filha do meio, que ficou conhecida com a alcunha da Cocas (embora nem as más línguas da família recordem agora a razão), não teve tanta sorte na vida profissional, mas encontrou igualmente o amor com um rapaz de famílias endinheiradas, com quem teve um único filho.
O pai da Diana, por outro lado, era o fruto de outras vivências. Chamava-se Manuel. Reservado e tímido, em tudo com um carácter contrário ao da Raquel, era o filho mais novo da família mais rica da aldeia, lá nos recônditos do interior de Portugal. Era a família mais rica porque o avô do Manuel tinha sido regente do sítio no século anterior e porque, durante a sua infância, o avô de Diana era detentor da única televisão do bairro. Com as vendas da loja, era capaz de dar aos seus três filhos uma vida digna e organizada. Sempre que podiam, iam à escola. Mas, mal chegavam a casa, havia muito trabalho do campo que fazer. E nada daquilo que faziam era menos do que a obrigação que tinham naquela casa, dizia o pai do Manuel. Há muitos anos, quando era novo, o pai tinha perdido um dos pulmões devido a uma doença crónica que o deixava debilitado. Esteve num sanatório, mas o tratamento deixou-o pior. Pelos menos nunca tivera que participar em nenhuma das guerras, como os meninos de sua mãe que perderam a vida em conflitos estúpidos. Mas isso é para outra história.
Sofia Rainho

Porto, 10 de maio de 2022 –
Todos os dias à mesma hora, a Martina sai para correr. E todas essas tardes ela depara-se com o cão que fareja a paragem, o moço que salta à corda na garagem de casa, o condutor do BMW branco que olha constantemente para o telemóvel, e pensa. Ela pensa que a vida é uma dádiva, que cada segundo que passa se torna uma marca na pedra do calendário que conta o passado, que cada grão de areia tem uma história própria. Pensa que a rapariga que ama nunca a identifica quando a vê na rua. Apenas passa por ela como se nada fosse. Será que a própria Martina é uma personagem de uma história, de um jogo maior do que a sua própria mente, maior do que o mundo em que vive?
Tosse. Desde domingo à noite que tenta falar, mas não consegue. Graças ao ar condicionado do avião que apanhou de volta da Alemanha que não é capaz de reproduzir qualquer som coerente com a voz cristalina que Deus lhe havia oferecido. Pergunta-se se será possível voltar a falar como antes ou se terá que esperar muito. A vida passa depressa, mas ela não pode deixar de correr atrás dos seus sonhos.
O sol põe-se. São já 21h e as ruas continuam cheias de gente no passeio. Será que há muita gente na praia? Aí é que se estava bem agora. Ou talvez esteja muito vento para lá estar, como na semana passada. De qualquer forma, seria bom ver o sol a pôr-se na praia; é sempre uma visão maravilhosa.
Ontem, a Martina tentou de novo ver a rapariga por quem se tinha apaixonado antes de se perder de amores por outra nova moça (a que agora a atormenta). Conseguiu, mas não se sente melhor com isso. Um olhar bastou para sentir de novo a chama acender-se e desgovernar todos os pensamentos que tinha por garantidos. E, por muito que tente, agora já não consegue ver a sua cara, apenas recorda os olhos, tão grandes quanto o infinito, e o olhar, tão frio quanto a neve (apesar de a Martina nunca ter visto neve). Quanto papel ela já gastou a tentar afastar de si o que sente por ela… Quantas vezes já tentou esquecê-la nos últimos quatro anos… Mas sempre que a vê volta esse êxtase de empreender aventuras e maravilhar-se. Ainda para mais, ela vem da terra que mais ama… da Alemanha.
Chegando a casa, a Martina prepara um chá de tília com mel, tão merecido quanto necessário para recuperar a sua bela voz. Este dia foi muito grande, pensa. Foi como toda uma vida. De manhã, acordou e preparou-se para assistir à única aula do dia, mas não conseguiu porque estava a sentir-se muito deprimida. Além disso, já ia chegar tarde e não gosta de chegar tarde à universidade. Por isso, esteve na cama a ver vídeos no YouTube até às 15h da tarde, a consumir filmes e entrevistas do caso Depp v. Amber, que anda a interessar o mundo (pelo menos o mundo dos coscuvilheiros).
Por muito que a sua mente vagueie, volta sempre a uma única pessoa. A moça dos seus sonhos, com quem perdeu a virgindade (se é que isso alguma vez aconteceu). Vive a duas paredes de distância deste ser divino, que trabalha todos os dias da semana das 9h às 18h, mas que hoje chegou às 20h… é que agora ela tem um namorado, alguém que resolveu arranjar exatamente duas semanas depois de dormir com a Martina três vezes em quatro dias…
É difícil pensar nisso, mas a Martina pensa constantemente. Não consegue deixar de o fazer, é isso que a faz permanecer sana – ou talvez seja o contrário, e pensar a faça enlouquecer. No dia dos anos de Martina, ela pediu para falarem seriamente e disse-lhe que as “outras pessoas” com quem já lhe tinha dito que gostava de estar tinham um nome, e um nome masculino. Devagarzinho, ela foi partindo o coraçãozinho da Martina.
Na semana seguinte, quando a Martina estava a hospedar no seu quarto, mas não debaixo dos mesmos lençóis, um amigo da Alemanha, ela foi direta ao ponto e disse-lhe que tinha falado com “o” namorado, o seu bom amigo, sobre o que acontecera entre as duas. No dia seguinte, ele veio jantar com o pessoal da casa e Martina teve oportunidade de o conhecer pela primeira vez. Foi bom, pela primeira vez, pôr uma cara na imagem que já tinha dele, formada através das duas noites que ele passou no quarto dela e durante as quais Martina não conseguiu dormir, chorou, maldisse-se a si mesma e a ela e amaldiçoou o universo. Foi bom ver os dois darem as mãos e trocarem olhares como outrora havia feito. Foi bom ver que ela nunca seria capaz de assumir publicamente a relação que claramente existira entre as duas. Foi bom para a sua depressão, para o abatimento das emoções, para os pensamentos suicidas. Mas para nada mais.
Hoje foi um dia desperdiçado. Amanhã será melhor.
Sofia Rainho
Oporto, 23 de abril de 2022 –
Estimada Xxxxx:
Me preguntaste si podríamos ser amigas y continuar a relacionarnos bien porque, al final, vivimos juntas en la misma casa. Me dijiste que te gustaba hablar y estar conmigo porque sientes que puedes hablarme de lo que sea, que te voy a escuchar. Eso está muy bien y me gustó oírlo porque también sentía que podía confiar en ti.
Cuando nos acostamos, me dijiste que también te gustaba. Me dijiste con tus besos que mis caricias en tu cuerpo te gustaban. Pero también me dijiste con tu falta de miradas que lo que estábamos haciendo era una vergüenza para ti. Porque apagaste la luz. Tres veces. Y por mucho que quiera olvidarlo, no me sale de la cabeza que quizá te imaginabas con otra persona, otro ser al que un día te has entregado ya, otro ser que ahora igualmente sufre con esta ausencia de ti. Yo qué sé. Tu vida es tuya y yo nunca te voy a juzgar por eso. Es lo que es.
Algún día me has dicho que soy una niña. Pues yo creo que en eso crees. Que en efecto crees que soy una niña. Y que no me ves como una persona con sentimientos, una más en un mundo incondicionalmente lleno de vacíos. Y me sentí así justo ayer. Porque anoche me mataste por dentro.
Las amigas no mienten unas a las otras. Las amigas confían. Las amigas saben normalmente lo que es mejor una para la otra sin tener que preguntarlo. Las amigas se conocen. Y anoche me enseñaste que todavía no somos amigas. Quizá nunca lo hemos sido.
Porque me has mentido al omitir que te gustaba otra persona. Hace dos semanas que nos acostamos y anoche cenaste con un hombre. Compartiste nuestra casa con él. Esta frase me da asco. Sí, porque la verdad es que me dio miedo estar en nuestra casa un hombre y por encima un hombre que te gusta. Me dio miedo que te acostaras también con él. Y si todavía no te gustaba ese chico cuando estuvimos juntas, qué rara eres en querer conocer a la gente tan rápidamente. ¿Por qué no me hablaste de él antes?
Me gustas. Ya te lo he dicho algunas veces. Me fie de ti, pero si supiera lo que sé hoy, jamás te hubiera besado. Es difícil admitirlo, pero es la verdad y te debo eso por encima de todo. Siento que me he entregado toda a ti y que me usaste, como un juguete. Siento que no te importa lo que yo realmente sienta. ¿Por qué realmente te acostaste conmigo?
Ya sé que no nos conocemos desde hace mucho, pero con nuestras conversaciones diarias nos hemos acostumbrado la una a la otra. Por mí parte, empecé a sentir una química en algunas miradas, pero nunca pensé que pudieras corresponder a lo que sentía yo. Espero que sepas que cuando estoy sola, solo pienso en ti. Ahora soy alguien a quien bajo tu hechizo de esperanzas en un futuro mejor le hiciste polvo. ¿Por qué parece que me persigues?
A veces parece que me ignoras. Hoy por la tarde, cuando te vi en la calle, estabas con tus auriculares en los oídos y te dije buenas tardes. Ni me hablaste y creo que no me viste, y aun así me dolió un poco al sentir la perennidad de la vida y como en poco tiempo vamos a dejarnos de ver…
Bueno, solo te quería contar que estoy triste y desilusionada. Buenos días para ti.
Saludos
Sofia
Porto, 22 de abril de 2022 –
Uma noite, não há demasiado tempo, acordei no hospital. Tinha 19 anos e a vida pela frente. Ou talvez não.
Quando se ama alguém em segredo, a vida é bela. As canções de amor fazem sentido, a luz amorosa do sol aquece e o ar que se inspira é o mais puro de todos.
Durante muito tempo pensei que não fosse possível transparecer em meras palavras toda a imensidade do sentimento humano. “E, contudo, ela move-se!” Sim, a realidade do sentir da mente é animada. E a minha alma anima-se.
De uma maneira ou de outra, a morte sempre nos apanha. Nada é eterno e tudo se deteriora muito facilmente. Quanto mais pensamos na vida, mais nos aproximamos da morte, mas será que sabemos o que é que isso significa?
Gostava de ser livre, de me sentir de novo liberta destas correntes de merda, estúpidas e redutoras de dignidade. Eu nasci livre, cresci livre e agora tenho que madurar acorrentada?
Nem sempre podemos dizer aquilo que não conseguimos deixar de pensar, mas a vida são dois dias, e é difícil aceitar essa limitação. Sinto-me mal. A podridão envolve-me. Os cheiros já se elevam. Uma língua de vapor emana dos locais mais obscuros do meu quarto ou daqueles que, sendo os mais expostos, não são possíveis de ver pela imensidão imparável de nojice que aqui se acumula. Foi alguém que abriu a boca? Não, és tu que me matas aos bocadinhos. Com essa tua mão indelével. Delével é a minha vida.
Estou tonta. A embriaguez é um estado de animo ao qual não me animo. Quando me disseste que ele vinha cá jantar, deu-me uma dor de barriga terrível. Acho que descobri a causa da minha indigestão de há dias. E o seu diagnóstico. Terrivelmente estou, a tentar imaginar como o acaricias, como te ris para ele, como ele te sorri para que o beijes com aquele fervor com o qual me tomaste os lábios. Não sei descrever este momento.
Talvez doa. Talvez me faça dor de cabeça. O que é certo é que és incapaz de me dizer a verdade. E eu não ta pergunto. Estamos bem assim. Mas, por favor, desenlacemos as mãos. Elas doem-me de pena e desconsolo. Só te queriam ter a ti. Só para mim. Só quero que sejas feliz. E que eu seja miserável, para poder escrever sobre sentir alguma coisa.
Desculpa não lutar por ti. Tu és quem deve escolher, não ser objetificada. Não sei se te amo, mas quero-te ter perto de mim pelo resto da minha vida. Se isso não é amor, não sei o que é, mas gostei muito de termos trocado carícias e algo mais. Queria que fosse o nosso segredo, mas quiseste chamar um homem. E eu tenho medo de homens. Tal como tenho medo de ti…
Eu estarei aqui, comendo-me toda por saber. Por que me fazes isto? Para que sofra e possa racionalizar. Certo? Não pode ser por mais nada. Por favor diz-me que sim. Que não me queres mais, que não me atormentas, que não sombreias os meus dias, todos os meus dias, todos os dias, todo o dia. Os dias. E as noites. E as noites sem ti. Porquê? Dá-me tempo.
Sofia Rainho
Porto, 22 de abril de 2022 –
Uma página em branco,
um cursor que pisca,
uma rosa que brilha
no escuro da escuridão.
Uma mão que acaricia,
um coração que sofre,
uma lágrima vertida
junto de ti — só que não…
Era uma vez um rei
Que vivia numa casa
s o z i n h o .
Veio um dia uma donzela
e ele quis abrir mão
de tudo quanto tinha
e que não tinha.
E disse:
— Sí?
— No.
— Qué rara eres, tía…
Ele deixou tudo transbordar.
Foi feliz, afinal,
mas o mal nem o quis.
Pois, no final, aquilo que lia de noite, à luz do ruído das estrelas
era uma ilusão.
Porque a sua palavra preferida não era razão, mas rimava com senão.
Porque todos os dias ele pensava nela, e ela nele. Mas ela tinha outro…
… problema.
Ela não tinha um dos dedos dessa sua mão. Ele não quis dar dedo. Como se fosse mão. Não se abriu totalmente, mas deixou à mão de semear todo um dedo… tão sem chão. Sem direção. Sem perdão… com… paixão…
Era uma vez um veado
que todo o dia caçava
ou que era caçado,
nem ele mesmo sabia.
Só sabia que sonhava
e que os veados não sonham.
E tudo isto é verdade.
Sofia Rainho
Porto, 12 de janeiro de 2022 –
A minha tia-avó Maria Manuela Melo e Cosme, com quem comparto laços de sangue, mas não um nome familiar, foi enterrada no dia 31 de novembro de 2011.
Hoje, passados 11 anos e 1 mês, decidi vir ao Cemitério do Prado do Repouso, em Bonfim, no Porto, para visitar os seus restos mortais. Sim, apenas o corpo. Porque a campa já não está cá. Há cerca de uma quinzena de dias, as campas da secção 50 que se encontravam aí ilegalmente foram arrancadas dos seus sítios e o local de enterro dos corpos foi despojado de qualquer identificação. Quase metade de toda a secção é agora formada de lama, que mais cedo ou mais tarde se tornará num prado. Onde um dia estiveram lápides e jazigos, jaz agora apenas o pó da terra. “Ao pó voltarás.” Somos nada mais que sombras e pó.
Enquanto vivemos, somos sombras nas vidas das pessoas. Passamos por elas como meros indivíduos cuja existência é supérflua e cuja influência nada mais é que passageira.
Ali, na sepultura 191, jaz a minha tia-avó. Vivemos 11 anos debaixo do mesmo céu. Nunca conheci a irmã dela, minha avó, Maria da Conceição Melo e Cosme, nem o meu avô, Manuel Abreu Lemos, quem com ela casou. Por isso a presença da minha tia-avó foi marcante na minha vida. Apesar de no dia-a-dia não nos encontrarmos, por vivermos em cidades distintas, sempre a vi como alguém amada e de prestígio na família. Essa família que, sabendo ou não, permitiu que, durante 6 anos, a campa estivesse ilegal. Nos 5 anos seguintes, deveria ter havido algum movimento relacionado com a campa. Como isso não aconteceu, a identificação da sepultura – que eu nunca conheci – foi arrancada do local de repouso da minha tia-avó, e de mais umas dezenas de mortos.
Por que é que sinto tão culpada da errónea conduta da humanidade perante os mortos? Será porque se pagam 36,08€ anuais por sepultura? Ou será que é porque isto acontece num cemitério católico?
Rodeada de ventos, árvores e campas, sento-me agora num banco de jardim. O frio penetra na minha roupa como se tivesse mergulhado num mar gélido à luz da lua. Olho para o horizonte, mas ele não existe. Só existem milhares ou até milhões de sepulturas ao meu redor.
Estudo no Porto há 4 anos e nunca tinha tido coragem de visitar o cemitério onde foi sepultada a minha tia-avó. Porquê hoje? Passaram poucos dias desde que a despossaram de identidade. Será que é uma coincidência ou foi um chamamento, uma força interna, ou externa…? E será que alguma vez poderei responder a estas perguntas – ou serão para sempre impossíveis de responder?
Sofia Rainho

Porto, 14 de dezembro de 2021 –
Ela fechou a janela do carro e continuou a olhar para o horizonte. O frio lá de fora sentia-se pelas frestas da janela. Lisboa, nesta altura do ano, tem algo de ventoso. Onde quer que pousasse os olhos, apenas via uma imagem. Um vazio. Muito negro.
— Que se passa? – perguntei.
— Nada.
Sempre aquela resposta seca, mas com tanta humidade.
— De certeza?
— Sim, não te preocupes.
Será que ela não sabe que me preocupo ainda mais por ela dizer isto? Parece que só dá respostas formatadas. Por outro lado, eu também só faço perguntas gerais. O que se passará connosco?
— Ok.
Zero killed. A verdade é que não é verdade. Alguns morreram. Foram mortos. Mataram-se. E esta é a sua história.
Sofia Rainho

Contumil, 3 de dezembro de 2021 –
Há não muito tempo atrás, quando o céu ainda sorria com muito brilho, chegou o dia em que te conheci. Estava apenas a começar a estudar na faculdade e sentia que muito ainda estaria por vir. De facto, não podia estar mais certa.
Lembro-me de te ver pela primeira vez, naquele gabinete, onde agora me dás aulas, onde me ensinas a viver, pelo qual sinto tanto carinho. Apenas porque foi lá que te conheci? Não, também por causa dos livros. Sempre os livros. Tinha tantas perguntas para te fazer. E todos os dias o sol levanta-se sem eu te ver – mais um dia sem ouvir a tua voz, mais um dia sem sentir a tua pele, mais um dia sem olhar para aqueles teus olhos cor de tudo e de nada (talvez de avelã?); e de todos os dias não te ver, perco um pedaço da minha alma. Há coisas que realmente não se dizem.
Também era o teu primeiro ano. Mas para ti o primeiro, se calhar, de muitos. Para mim, era apenas o primeiro de uns poucos. Não sei se me faço entender; o que eu quero dizer é que apenas começaste uma carreira na universidade, enquanto que eu nem uma carreira de livros consigo ler. Estou na faculdade e não leio. É um contrassenso, mas é a verdade. Entre tantos afazeres, o tempo corre mais quando menos se espera.
Desde o primeiro momento que te achei bastante atrativa. Os olhos, o nariz, o piercing no lugar certo, o jeito do cabelo… É impossível resistir perante tanta beleza feminina. Lembro-me da franja, lembro-me do computador tatuado com uma grande imagem de uma Branca de Neve gótica admirando a maçã do MacBook. Lembro-me de não conhecer mais do que uma dúzia de pessoas presentes naquele espaço, mas sentir que te conhecia desde sempre. Lembro-me dos lábios.
De qualquer forma, sempre te admirei de longe. Preocupo-me e lembro-me de ti todos os dias da minha existência. Tento esquecer-te ao emergir em filmes, vídeos, ecrãs que me exasperam. Nos meus pensamentos, surges-me sempre que paro para pensar. Até quando saio para passear e vejo o pôr-do-sol… nele vejo-te, sempre.
Desde pequena que o meu único propósito constante na vida é ser feliz. Cedo descobri que, para isso, tenho que fazer os outros felizes. Mas é difícil fazer-te feliz. O que esperas de mim? O que posso mudar em mim para que te sintas melhor? Ou preferes que eu seja eu, para sempre, e nada mais… e que continue a ser um nada para ti…? E se não sou nada para ti, como pode ser que tenha todos estes sentimentos por ti? Sentimentos contraditórios, sentimentos de desespero, sentimentos de dúvidas e medo, sentimentos de carinho e proteção, sentimentos de controlo e de querer saber sempre mais, sempre mais, sempre mais…. De saber tudo sobre ti. É isso amor? Ou paixão, sequer? Ou apenas um sacrifício mais que a minha humanidade quer que se manifeste?
Nunca namorei alguém, nunca beijei alguém. Mas amei. E sou amada. Amei pessoas que considero amigas, amei pessoas que deixaram este mundo para sempre, na sua forma física, mas que levarei sempre comigo, para onde quer que vá. Serão sempre os meus fantasmas e vão-me assombrar para o resto da vida. As lágrimas não param de cair.
Será que mereço este suplício? Será que mereço amar-te em segredo, sem saber nada sobre ti exceto o teu nome e apreciar aquilo que fazes de melhor? Não sei quem sou. Sou ressentida, sou magoada, sou confusão e sinto-me uma diversão mais para os demais. Sou um brinquedo nas mãos do tempo. Sou nada sem ti.
Para! Para de me aparecer na mente! Para de me possuir os pensamentos, todo e cada dia da minha existência! Para! Vai-te embora!!! Não quero pensar em ti, não quero sentir que me emocionas, não quero que estejas comigo todos os dias. Não quero. Na verdade, até queria, se tu quisesses. Mas não quero. Nem te conheço. E não me conheces. Mas eu quereria conhecer-te. Será que me deixarias? Mas eu não quero: vai-te embora! Eu não te escolhi, mas basta pensar no teu corpo, na tua voz, no teu olhar. E derreto-me uma vez mais a pensar nessa tua mente, que deve ser tão inteligente, tão interessante, tão fascinante, tão tua, tão como tu és realmente, tão bonita. Mas não posso. Tenho que parar de pensar em ti. Dizem que escrever sobre um assunto ajuda a racionalizá-lo e que verbalizar os problemas é bom para os resolver. Eu não concordo. Às vezes, piora-se os problemas e é uma problemática sair deles. Este parágrafo já vai longo, vamos lá sair dele.
O que me interessa agora dizer-te é: não sais da minha mente. Não sei o que fazer sobre isso. Não quero que me digas o que fazer com isso. Quero apenas que o saibas. Tens direito a sabê-lo, já que estás tão presente na minha vida. Tens um lugar especial nela. Mas não me perguntes porquê: não saberei responder-te. És como és, eu sou como sou. E sei que tudo continuará assim. Não se trata do nosso passado, ou o nosso presente, mas do nosso futuro. Na história da humanidade, sempre houve espaço para a ficção e o seu tratamento enquanto realidade. Por isso posso dizer com certeza que te amo. Porque no meu futuro sei que te vou amar. Para sempre. Até cair no esquecimento. Apesar de nada ser eterno.
As minhas mãos tremem no teclado com a força nas palavras que escrevo. São frágeis, mas úteis. São os meus amparos nas horas mais solitárias e não me desiludem. Mas agora outras mãos, maiores, se levantam. São as tuas mãos. Tuas. De quem o nome nunca poderá ser proferido. A magia do teu nome permanecerá perdida na minha memória. Por que escolheu Deus que eu te amasse? Que tenho eu para te oferecer? Nada, só estas mãos inúteis. Porquê Deus? Diz-me o porquê.
Sofia Rainho

Contumil, 1 de dezembro de 2021 –
Someone once told me it is important to cry. One has to suffer so one can feel pain and know that one is loved. When one feels like it, it is ok to cry. Crying is a most wonderful thing. The night I met this someone, I cried. It was the first time I really cried. It felt good. I felt alive.
The person who taught me this was walking the Camino for three years and was nowhere near to finishing it. You see: the Camino is a state of mind, not a place. He is inside you and grows with time. He never leaves you. He is you.
Ever since I left the Camino, I want to go back. An infinite force has been insistently calling me. I would like to find this wanderer again, talk to him, ask him if he is well and if he has cried much lately. If he still reveals strangers the beauty of life through metaphors. If he is happy. There was a sadness in his eyes. His family had abandoned him. By his own choice, he had no house, no car, no job. Only the Camino.
I want to go back because of him.
But someone else once told that some things are supposed to be said. This someone is a very dear friend of mine I shared the Camino once with. She taught me a lot during that journey. We laughed and sang a lot; we ran and walked a lot together. Sometimes, we were scared – but then we had each other. Sometimes we were too tired to talk – but at least we had each other.
To be alone is a most underrated thing nowadays – but to have a company is always better.
Sofia Rainho

5 de novembro de 2021 –
Aquela loja de música traz muitas recordações daquilo que foi vivido e que não volta mais. Basta vê-la e relembro a primeira vez que me apaixonei, e penso também naquela antiga clareira, com amigos reunidos à volta de uma fogueira. Voltam à memória outras primeiras vezes: o primeiro acorde, o fazer soar a primeira barra… e vem uma nostalgia, que se metamorfoseia numa saudade daquele momento em que me apercebi que amava.
Foi numa tarde de verão muito calorenta. Mal entrei, tive um pressentimento de que o ambiente da loja soava diferente… mais familiar do que outras que visitara nesse dia. O dono, bastante atencioso, era capaz de afinar, apenas pelo ouvido e com uma rapidez impressionante, toda e qualquer uma que me apresentava. Pegava nelas, fazia soar uns acordes soltos e desatava a inventar melodias.
Ele tocava, e eu já não era eu. A música levava-me casualmente para fora da minha zona de conforto, mas, ao mesmo tempo, para dentro da minha própria alma – como quando se viaja. Sentia-me presa, mas sem sufocar, numa melodia viva e suave. A leveza dos movimentos, a rapidez dos dedos e a emoção do artista captavam inexoravelmente a minha atenção. Sentia uma enorme conexão com a música. Sentia que acordara. Que estava tudo bem e que tudo ficaria bem.
E…
Nem aí, nem depois, quando lá voltei mais um par de vezes, deixei de sentir o quão especial é aquele lugar para mim. Quero evitar ir lá e desejo, apenas, guardá-lo numa caixinha, para que continue intacto — tal como é na minha memória.
Mas…
Tenho medo que a minha caixinha fique vazia. Que, quando a abra num futuro próximo, veja apenas, muito ao longe, uma ilha isolada de recordações e memórias bonitas e que, a cada nova etapa da vida, não seja possível armazenar toda a tralha emocional que levo dentro. Tenho medo, porque o tempo não perdoa e, eventualmente, deixarei de sentir e de amar esse lugar. Passará a ser, apenas, um passado perdido.
Acredito no grande poder dos “ses”, dos “talvez”, dos “porquês” e da imaginação. Não porque goste especialmente dessas manifestações do intelecto que alimentam os medos, mas porque as considero — digamos — inquestionáveis. Existem, e todos estamos à sua disposição.
Porque é que eu nasci? E para quê exatamente? Tudo está já inventado…
Não, não é verdade: os detalhes; as memórias; questionar os sentidos; desafiar as sensações; os medos…
Mas o que é que é a verdade? A verdade é que somos como peões de um jogo maior, à espera que o tempo passe e que se passe o tempo. A verdade é que… tenho sonhado muito com o sonho. Com a diferença entre sonhar e viver. Vivemos num sonho ou sonhamos uma vida? Quem é que fez o mundo?
É a maior força, o medo — é sobre-humano. Não gosto de admitir que tenho medo. Medo dos dias e das noites, de não exceder as espectativas, medo de ter preocupações e problemas por resolver e de não transparecer o que pretendo transmitir. Mas o pior medo que tenho é o de me perder. Perder-me comigo mesma.
Logo…
Desejo evadir-me deste mundo demasiado real, quero escapar da realidade e não ter mais que me esconder. Nem dela (da realidade), nem de mim.
Ora… a morte parece ser a única resposta para todos os problemas que me assolam. A única que pode ser única. A vida é curta — a vida é bela, mas é a vida… E o que é a vida sem a morte e sem o sofrimento que esta causa? Se a morte também fosse um arco-íris de opções, será que seria, na mesma, uma resposta?
O fácil é lidar com pessoas quando não se tem que lidar com elas. Mas elas entranham-se lá no fundo e não há escapatória possível — quer-se ser elas, quer-se estar com elas, quer-se tocá-las, quer-se beijá-las… Quer-se, sem se poder fazê-lo — porque dizem que é um atentado à natureza, não é natural, não é discreto, não é normal…!
“Normal”! Um conceito abstrato que, na prática, seria impossível de definir. Ninguém é normal, porra! Nem mesmo Ela. Eu amo-A. É sempre alguma Ela, a Amada. Porquê? Por que é que não consigo preocupar-me em encontrar outra? Outra Ela.
Ou…
Outra eu. Porque que é que não há outra eu?
Às vezes, os olhos Dela transparecem uma quase raiva entristecida. Outras vezes, o simples não olhar para os olhos Dela é-me doloroso. Dói não poder fazê-lo sem sentir vaidade.
Portanto…
Dói-me o orgulho.
É difícil deixar tudo para trás. A História bem diz, com um rigor bem demarcado que o que custa numa revolução é só o início.
O que não diz é que, com o choro de um só acorde de guitarra, toda a solidão se desvanece e surge na ilha, lá ao fundo, um riso amoroso… quiçá de uma futura infanta bananeira.
Sofia Rainho

Contumil, 12 de outubro de 2021 –
Quem
me dera, a mim,
descrever-te, a ti,
como o mundo para
de girar de cada vez que
se dá o cruzar das nossas existências.
Quem me dera, a mim, chamar-te, a ti:
a primeira do que é teu é a décima
e é parte da sexta de ti – que
já é última.
Quem
me dera, a mim, dizer-te
como esta brisa do rio ao luar
me relembra os teus olhos despertos
e os meus, sonolentos, mirando-te sempre.
Quem me dera falar-te da tua beleza,
elogiar a tua elegância
de pensamentos,
informar-te
daquilo
que
em
mim
despertas.
Ei! Ó tempo –
traz de volta
a inocência
e priva-me
de sentir
o vento
chamar
-me,
apenas,
como uma
mágoa perdida
no meio da
solidão.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 25 de abril de 2021 –
As nuvens passam, e deixam cair por terra o tempo. Desvanecem-se as memórias das tuas feições, essas curvas e linhas que tanto me dão gosto apreciar quando estou na tua presença.
Agora, o sol brilha. Agora, os pássaros cantam. Mas, quando estou contigo, ouço apenas um mar, que me convida; vejo apenas um horizonte infindável nos teus olhos. Porque me atrais tanto? Porque não estás comigo? Sinto-te, mas não te tenho e, por muito que queira sorrir por saber que olhas para mim quando o fazes, acercam-se-me sempre as duvidosas incertezas.
Quero-te bem, quero… nada mais do que olhar pela janela e ver o teu reflexo num brilho de sol. Quero-te ver nas nuvens brancas do amanhecer, na aragem suave do entardecer, na escrita destas horas vagas.
Porque me deixas com tanto desalento? Se te vejo em sonhos, choro porque não estás lá; se te sinto em mim, choro porque não estás aqui. Quero deixar-te mensagens, códigos, jogos, brincadeiras. Talvez o possa fazer. Mas como? Não quero que me julguem, que nos julguem, que te julguem. Não sei viver sem paixonetas. E tu não és nada mais do que uma. Lamento. É assim que me sinto. Amo-te. Amo-me.
Amo-te para me amar, para me respeitar, para me sentir, para me viver, para me respirar.
Amo-te, mas não sei como to dizer. Mas amo-te. Amo-te realmente? Amo esse teu olhar doce, as tuas palavras deliciosas, os teus comentários nobres (sim, eu ouço-os) e a ti. Amo-te a ti. Acho eu. Acha um eu em mim dentro. E eu amo-o.
Não sei senão escrever o que sinto e preciso sempre de alguém a quem o escrever. Escrever por escrever não me satisfaz: preciso de um propósito, um desabafo, um olhar mais cruel ou mais racional sobre o que penso e sinto e quero. Sobre ti. Sobre nós. Sobre mim.
(Que as minhas prioridades estão trocadas, sei-o eu. E talvez mais alguéns, mas sobretudo eu mesma.)
Sobre nós. Sobre ti. És bela e sinto algo especial quando estou contigo. Esse algo sou eu. Sinto-me especial. És bela e, quando olhas para mim, sinto que me olhas com a tua alma inteira, sem haver vazios, nem aflições, nem ‘porquês’, nem limões. Era só para rimar. Será que gostas de kiwis? Desculpa, é que eu não. Divago muito, isso sim. És bela e maravilhas-me com esse teu jeito de falar. É um pouco estranho, devo admitir, mas, agora, gosto de o ouvir. Gosto de te ouvir. Muito. Adoro ouvir-te. Amo ouvir-te. Amo-te?
Antes, pensava que só se vivia uma vez. Que é preciso aproveitar a vida. Que cada dia que passa nos dá menos tempo, tempo esse para ser feliz e realizada. Mas já não. Agora, não. Agora, só quero viver contigo, que me contes as mentiras mais bonitas, as verdades mais falaciosas e quero acreditar em ti. Que me digas que não dói. Que, aqui, onde me sento a escrever, (ainda não ou) nunca chorei amargamente. Por quem eu não esqueci. Por quem não viveu o suficiente. Por quem não sabe quanto é o suficiente. Por quem já não viveu. Quem não vive já. Não vive. Não.
Não.
Não. Não quero viver. Não quero viver sabendo. Viver sabendo que não vivem. Que eles não vivem. Os meus fantasmas. Os que me dão medo de poder alguma vez sonhar com eles. Não quero vê-los. Eles não vivem. Mas estão dentro de mim. Se eu for viva, quererá dizer que eles estão vivos? E se eu estiver morta? Quero não-viver. Pela dor. Pela morte.
Voltar onde os vi, onde me via, vivos, ambos, todos, é morrer por dentro. Este lápis vive, viverá, sempre haverá vestígio dele. Nestas páginas, no lixo, no pó ao qual voltará com o passar do tempo. Viverá mais do que eu. Mais do que eles. Os fantasmas. Os não-vivos, que vivem nas paredes da minha memória. Por eles, ‘vivo’. Queria que isso fosse verdade. Queria que mo dissesses ao ouvido, numa noite de luar, num campo de erva fresca e húmida, num país estrangeiro, numa época de paz e saúde… Não quero saber. Da verdade. Diz-mo. Ao ouvido.
As contorções do meu enjeitado corpo acordado jamais demonstrarão tudo o que sinto e penso e quero. Mas – meu amor, que não és minha, nem nunca serás – que as minhas palavras, por ocas que sejam, te sirvam de consolo. Elas apaziguam a minha alma (quando estou viva) e fazem-me sentir viva (quando não o esteja).
És bela.
És vida.
Sofia Rainho

Es war einmal ein alter Mann, der am Jakobsweg lebte. Er hatte keine Lust, nach Santiago de Compostela zu gehen. Er hatte nur die Absicht, alleine im Wald zu wandern. Er sagte mir wunderbare Metaphern. Die Menschen wollen einfach frei sein. Das Leben hat keine Geheimnisse. Man weint, die Blumen blühen und die Zeit geht weiter.
Nach der Begegnung mit diesem interessanten Mann habe ich vorgehabt, alle meine Erinnerungen auf einer Trauminsel zu behalten. Wenn ich mich sehr schlecht fühle, gehe ich im Traum auf meine Insel. Sie ist mein Refugium, um vor der Realität zu fliehen.
Es gibt dort eine dunkle Höhle, in der ich mich mit meinen Großeltern und meinen Freunden, die tot sind, treffe. Es ist schwierig weiterzuleben, denn ich vermisse sie. Doch ich habe auch viel Spaß auf meiner Insel. Ich habe alle meinen glücklichen Erinnerungen im Wald gepflanzt.
Ich sehe Ereignisse der Vergangenheit und ich reise wieder. Ich wache bei Anbruch der aufgehenden Sonne auf, setze den Rucksack auf meinem Rücken und fahre nochmal mit dem Fahrrad in die Nähe des Flusses. Aber ich bin nie müde.
Ich sehe bewegende Augenblicke, in denen ich mit Menschen auf die Straße gegangen bin. Ich habe sie auf in meiner speziellen Schatztruhe behalten. Menschen riefen einander zu und umarmten sich. Jetzt muss man zu Hause bleiben. Wenn die Coronapandemie vorbei ist, wird man vor Freude weinen.
Ich habe auch einige Erinnerungen am Strand gebaut. Es ist immer heiß und sonnig. Meine Freunde und ich laufen, tanzen und schwimmen gerne. Ich freue mich sehr über den Wind und den Geruch des Meers und ich vermisse es. Ich finde es entspannend, das Lachen der Möwen zu hören.
Alles klingt süß. Ich will wieder frei sein.
Sofia Rainho
(terceiro lugar no concurso de escrita Die Zeit: ein Schreibwettbewerb an der FLUP*, no nível B1 com o tema Nostalgie der Vergangenheit)
*organizado pela página Alemão ist lustig em conjunto com a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Núcleo de Estudantes de Línguas Aplicadas, o Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais da Universidade do Porto, o Departamento de Estudos Germanísticos e o Deutscher Akademischer Austauschsdienst
Lordelo do Ouro, 12 de novembro de 2020 –
O maior perigo deste mundo é ter um amor proibido. Um amor que sabes que não é correspondido. Mas, ao mesmo tempo, atravessar todos os processos de sentir paixão por outro ser humano é sempre uma nova aventura.
Além disso, quando estás a tentar entender e conhecer outra pessoa, nunca sabes o que esperar, o que faz com que as tuas expetativas sejam altas. Na hora da verdade, somos todos umas “conas de sabão” a tentar integrar-nos numa sociedade. Numa sociedade de princípios e limites, tão cheia de estereótipos e preconceitos como os livros antigos, antiquados e já ultrapassados.
Neste preciso momento em que escrevo, penso nos teus olhos, no traçado da tua face e do teu cabelo, no teu corpo elegante e na vontade que tenho de possuí-lo. E da coragem de ser capaz de o dizer, que sempre se me escapa. Mas depois penso no injusto que é não saberes a verdade, no desprevenido que seria se tocasse nesses lábios com os meus, no teu sorriso, que se apagaria com este toque indesejável.
Não sei lidar com esta vontade de te ter junto a mim e de, ao mesmo tempo, sentir repulsa por saber que o que sinto não é reconhecido pela maioria da população. E, por isso, agradeço a Deus estar consciente o suficiente no agora e neste aqui (percebo agora que o corretor serve para quem esteja embobadado) para não ter feito algo do qual me arrependa profundamente. 🙃
Sofia Rainho

Porto, 14 de outubro de 2020 –
Honestly, I do not even know if you are ever going to read this, – maybe someday – but I do not need anyone to pity me. I pity myself enough, even if I do not want it to be that way. In fact, I ask you, with the kindest of intentions, to please not pity me. I do not need that – in fact, it is the last thing that I need.
I have moved on with my life: I love myself and a lot of people around me; I love living. There was a time when I did not think I would because I felt like I had to know how you felt about me but now that I have figured you out, I am okay. I actually like it and feel much better this way.
So, stop pitying me, stop showing that you care when I know you do not. But please do not pretend that I do not exist because that really hurts. The fact that you do not fancy me the same as I do feels bad, but it is worst when I see that telling you has had a great influence on you. You do not have to pretend, but it would be better if you were not so very obvious about the fact that you are uncomfortable that I told you how I feel and that you know it.
I am a grown-up person; I do not need you to show me that you are not interested. Can you please just continue being my friend? You once were everything, and now you are just something, still very special.
That is all that I have to say. I am sorry about ever being in your life.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 27 de agosto de 2020 –
A casa dos meus sonhos fica a um minuto – talvez menos até – da minha casa atual. Durante grande parte da minha infância, conheci-a como uma casa abandonada, com quintal desbravado e portão desengonçado. Sempre que reparava em algum movimento dentro do recinto que se encontra por detrás do muro, excitava-me a ideia de alguma vez ser uma dessas pessoas que lá via entrar. Nunca vi como era por dentro. E, agora, será demasiado tarde.
Há uns anos, a casa foi intervencionada. Estiveram lá trabalhadores que, com certeza, a viram tal como era, no seu modelo antigo. Quando as obras terminaram, pensei que conseguisse finalmente espreitar o seu interior. Mesmo não ficando a saber se havia sido diferente, bastar-me-ia para dar uma imagem àquele branco que sempre devorou a minha curiosidade. E, quem sabe, talvez pudesse, pela primeira vez, ficar amiga de algum vizinho meu. Mas tal não aconteceu.
Muitas vezes me passou pela cabeça lá ir apenas para a ver. Passar por aqueles muros cor de burro (quando foge e quando fica), atravessar o portão e tocar à campainha. Talvez deixassem. Afinal de contas, a aparência do traçado mantém-se a mesma, e nota-se que é uma casa antiga, com valor. Mas seria demasiado?
Nunca sabemos o que o futuro nos reserva. Mas sabemos que, tal como Ricardo Reis nos ensinou, aquilo que não vivemos não nos pode magoar. Ir demasiado longe pode trazer-nos mais inseguranças e fazer-nos sofrer. Por isso, prefiro continuar sem saber. Por isso, o interior da casa é um sonho e, para a minha mente traiçoeira, apenas um meu imaginário. Por enquanto, a casa é só minha.
E, se alguma vez tiver que passar a ombreira dessa porta, saberei ter-se passado comigo algo doloroso o suficiente para que o arruinar dos meus sonhos não mais doa. Porque detrás da fachada desta minha casa (minha, porque mais ninguém a viu com os meus olhos), atrás das paredes amarelas que a ladeiam, esconde-se uma realidade inevitável que todo o ser humano tenta, em vão, evitar.
“É uma verdade universalmente reconhecida” que sempre nos apanhou, prende, e continuará a deter. Caso não tenhas adivinhado ainda, a casa dos meus sonhos é agora, acima de nada, um centro funerário.
Ganhar é perder. Perder é ganhar. E estar vivo é o maior dom que temos.
Sofia Rainho

Frase filosófica… (?)
Figueira da Foz, 10 de agosto de 2020 –
São 20:22. É fim de tarde de segunda-feira, dia de trabalho.
No caminho para casa, o céu está azulado como nunca e parece que Alguém pincelou no ar frescos riscos com as cores da laranja e da rosa.
Enquanto um gato pardo atravessa a estrada e salta um muro de dois metros, um casal passa – a mãe foca o olhar no da transeunte e sorri.
O mundo civilizado envolve a natureza que se impõe nos pinheiros, no canavial, nos arbustos, no parque em geral. Neste momento, ela atravessa um caminho de terra batida saído de um conto de fadas. Toca de raspão nas folhas para tomar parte desta fantasia.
Um senhor de avental espreita a varanda e observa o pôr-do-sol, encoberto já de gigantes cúmulos da cor da cinza. Ouve-se o chiar de pneus a derraparem na gravilha.
Mas, apesar de toda esta ilusão, o momento que mais lhe desassossega a mente é sentir ainda na pele a última vez que teve um encontro. Um sorriso, um olhar, o último contacto que, onde quer que se dê, é fruto de um sentimento por aqueles que com ela se cruzam nesta caminhada.
Um sentimento que lhe traz nada mais do que saudade e nostalgia, que a torna a levar para casa. E, para o descobrir, basta apenas abraçar sem braç(os) e plagiar a letra M…
Sofia Rainho

Nota: “O Plágio da Letra M” é uma série de textos selecionados que decidi compor no seguimento de algumas ideias soltas, mas conexas no seu íntimo.
Figueira da Foz, 29 de junho de 2020 –
Faltavam exatamente 365 dias para ele voltar a celebrar o dia em que começou a fazer parte deste mundo exterior que apenas o havia rodeado por uns escassos meses, antes de nascer. Seria tão mais fácil poder renascer a cada novo aniversário…
O tempo é, desde o começo da civilização, um valor absoluto e, dir-se-ia até, concreto. Parece até uma praga que o vejamos tantas vezes como um dado relativo à nossa subjetividade, e que poucas vezes disto nos apercebamos.
Mergulhado nestes pensamentos, o sujeito distraidamente pegou no lápis e começou a raspar com ele no caderno que abrira à sua frente. Primeiro, apenas desenhou linhas retas ligeiramente encurvadas, depois entrou numa autêntica competição com a folha, fazendo o lápis conduzir uma dança furiosa por entre os riscos. Parou subitamente e, com surpresa, analisou o que tinha acabado de anotar: “não consigo” em letras maiúsculas.
Assustado com o que havia acabado de presenciar, ele apercebe-se agora de que rodeou a frase com tanta força que o bico do lápis quebrou e a ponta permanece ainda a baloiçar na superfície das páginas. Mas o que mais o espanta é o grande borrão que mancha o início da frase, como se alguém tivesse tentado eliminar algo que houvera pertencido à frase – o antecedente parece apunhalado e esvaindo-se em sangue.
Neste preciso momento, levanta-se e, apesar de o fazer devagar, fica atordoado com as tonturas que atacam os seus sentidos, como de cada vez que se tenta mover sem contar. Sem saber por que razão, revisita momentaneamente um pesadelo recorrente em que se vê, sozinho, rodeado de um fundo negro de nada, cheio de chamas escarlates afogueadas, arrasando tudo à sua passagem, permanecendo apenas uma parede de tijolo atrás de si. Mas nunca chega o momento crucial, e a visão acaba por ali, como sempre.
O futuro ninguém o sabe. Mas dizem que ele, num sobressalto, dirigir-se-á ao espelho mais próximo. Virará a folha e, cerrando os olhos através das grossas lentes que carrega no nariz, conseguirá ver a frase completa, incluindo a partícula inicial, uma só palavra: “Eu”.
Sofia Rainho

Nota: “O Plágio da Letra M” é uma série de textos selecionados que decidi compor no seguimento de algumas ideias soltas, mas conexas no seu íntimo.
Figueira da Foz, 29 de junho de 2020 –
Agradeço imenso ao Universo por me ter dado tantas incríveis oportunidades ao longo da minha curta vida. Mesmo nos momentos menos bons, consigo ir buscar às minhas memórias sentimentos mais emotivos do que uma explosão. Seja pelas pessoas que vou conhecendo e pelas circunstâncias em que convivemos, seja pelos locais que visito, sinto que viajo bastante para dentro e para fora de mim mesma. Guardo com muito carinho todas as viagens que fiz, pois sempre me ensinaram a percecionar a realidade através de novas e extraordinárias formas.
Em agosto de 2018, tive a oportunidade de fazer o Caminho de Santiago – experiência que desejava poder realizar após ter visto o filme “The Way” (que, aliás, recomendo), alguns anos antes. O Caminho é, por si só, muito enriquecedor. Seja pelas paisagens que sabe tão bem apreciar, pelo espírito de camaradagem, pelo fresco da madrugada, pelos sorrisos impossíveis de esquecer, como ainda pela mensagem de desapego, de sobriedade e pelos momentos de tão merecido descanso. Mas o Caminho é, ainda, uma caminhada pessoal de descoberta interior.
O episódio que mais me marcou, em toda a minha vida, aconteceu já perto da última etapa, em Pontecesures. Pela primeira vez, iríamos dormir num albergue, e, à hora de jantar, quando nos juntámos, a grande mesa da sala comum estava já ocupada.
O nome dele era Jorge. Era um caminheiro francês e falou connosco num espanhol engasgado, mas era como se o entendêssemos perfeitamente. Ao princípio, não me apercebi da interação; depois, dei-me conta de que cada palavra que dizia, apesar de sobreposta pelo burburinho afável do grupo, era absorvida por um pequeno conjunto de jovens que, casualmente, se haviam sentado perto dele. Primeiro, falou da sua vida, de como havia sido marginalizado pela própria família. Não me recordo se revelou exatamente a razão, mas apenas que teve que sair de casa e fazer pela vida. Despojou-se de bens e há alguns anos que percorria os vários Caminhos de Santiago.
Depois deste relato que me arrepiou profundamente, este homem manso e humilde de coração apresentou-nos a sua visão da vida, tentou explicar-nos como as coisas mais simples são também as mais bonitas. Ali, naquele momento, ensinou-me, em poucas palavras, o significado e o sentido de viver. As metáforas que usou foram tão belas que os meus olhos não aguentaram mais e, depois de nos despedirmos, chorei abundantemente.
Penso sempre nessa noite com muita ternura e, apesar de saber que nunca poderei inteiramente reproduzir aquilo que ele nos disse, porque sinto que estaria a corromper todo aquele momento, reflito frequentemente que tentar passar a mensagem que recebi é o melhor que posso fazer para melhorar o mundo.
Como dizia Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”.
Sofia Rainho
Ps: convido-te a escutar esta melodia ;)
Nota: “O Plágio da Letra M” é uma série de textos selecionados que decidi compor no seguimento de algumas ideias soltas, mas conexas no seu íntimo.
Figueira da Foz, 14 de junho de 2020 –
Perfumando o ar, alguém atravessava os longos salões daquele misterioso castelo. Mas, ao não encontrar nenhum sinal das conchas de náutilos – que se dizia terem sido símbolo da grandeza de um tempo irreverente -, deparou-se com uma divisão cheia de estátuas cujos movimentos apontavam para uma estatueta insignificante de um anjo sem a metade maior da cara.
Sentindo um tremendo pressentimento de que não deveria estar a ocupar aquele espaço, decidiu começar a correr em direção a uma varanda suportada por aquilo que pareciam ser cariátides. Quando havia quase alcançado a portada da dita divisão, perdeu o chão e caiu através de uma concavidade, possivelmente escavada pela grua que tinha visto antes de entrar no terreno que agora explorava.
Levantou-se e, ao observar à sua volta, concluiu que um caminho à sua frente levava a uma saliência do terreno, uma enorme janela pela qual saia uma torrente de luminosidade que, por momentos, cegou. Mas, dando um passo adiante, ouviu algo a estilhaçar e, com surpresa, reparou que se encontrava numa sala repleta de espelhos. Sorriu. Tinha acabado de encontrar mais uma das salas secretas que quisera visitar.
A magia e empatia que sentiu nesse preciso momento, em que viu a sua imagem refletida, aguçaram o seu sexto sentido, dando alento à sua existência. Procurou em si a memória e viu, tão claramente como no próprio passado – ou futuro, quem sabe… -, a reação que Ela tivera ao saber que ambos pertenciam ao mesmo signo, touro. A realidade reproduz-se-nos quando menos esperamos.
Perdendo-se nestes pensamentos, deparou-se com uma brilhante paisagem que aparecia por detrás da janela. Desta vez, conseguia ver com imenso detalhe todos os pormenores – tão bem, que nem parecia real. Tentou aproximar-se, mas teve receio de que a janela prendesse o seu corpo, e chegou à conclusão de que talvez fosse perigoso aventurar-se por aquele caminho. Parecia demasiado fácil conseguir sair dali por uma janela casualmente encontrada. Ainda para mais, pensou, um vidro transparente poderia simplesmente preencher o espaço e mostrar-lhe aquilo que mais desejava, traindo os seus sentidos…
De repente, ouviu algo inesperado e viu um enorme piano cair pelo mesmo buraco pelo qual havia escorregado. Saltou para se desviar e sentiu o corpo resvalar nos pedaços despedaçados do chão espelhado. O estrondo assustou algumas gaivotas que confraternizavam perto do parapeito da janela. Contudo, decidiu não vacilar, virou costas e continuou a sua jornada, o ruído desvanecendo-se tão intempestivamente como aparecera.
O seu objetivo não poderia ser distraído por tais fúteis acontecimentos. E, enquanto as aves marinhas voltavam a entrar na sala, escalou a colina pela qual escorregara momentos antes – ou após, porventura…
Sofia Rainho

Nota: “O Plágio da Letra M” é uma série de textos selecionados que decidi compor no seguimento de algumas ideias soltas, mas conexas no seu íntimo.
Figueira da Foz, 14 de junho de 2020 –
Chove.
Lá fora, um grande pinheiro ondula ao sabor do vento, encantando-se com os chilreios das aves autóctones. As agulhas fazem lembrar a época natalícia, tão profusamente esperançosa e mansa esta árvore se impõe. Os seus esguios ramos, quais vis braços criadores de tão elegante robustez, prolongam-se pelos telhados das garagens, outrora livres de uma florestação arbústea – cuja inexistência de raiz parece indicar uma perene existência. O céu escurece, à medida que os olhos dela acompanham a passagem das nuvens através do vidro.
«Nuvens laranja…» pensa. «Talvez amanhã o dia traga calor!».
Bem longe dali – mas apenas em distância -, uma janela abre devagarinho. Um vento trazido pelo mar entra, sem inquietação, e espalha-se pelas frestas do quarto, que se enche de um só aroma.
Quanto tempo passou entre estes acontecimentos? Entre a precipitação, a contemplação do meio e a invasão de diferentes formas da Natureza? Onde está a realidade ou a ficção? Quem assume o controlo? Ela indaga se os sentidos a desorientam ou se ela própria desorienta os sentidos.
O tempo é absoluto, mas vê-o relativamente abstrato. Ela receia aquilo que não reconhece, porque confia que a experiência a ensinou a vacilar apenas quando não sabe o que esperar. E continua a sentir medo, quando disto se apercebe.
Um maremoto de emoções, que agora invade o olhar, repleto de altas ondas que lhe turbam a visão, trazem de volta à memória um par de momentos trágicos. Pensar no passado dá alento ao presente. Mas também acorda – guardados em recantos perdidos que se assemelham à imaginação – pedaços de mágoas adormecidas. Revolta, frustração, nervosismo, dor… quantas vezes este irreverente fenómeno da Natureza tomou parte da caminhada que fez pela vida.
Recorda quando sentiu a penetrante liberdade de perceber que pensar em si como uma só é egoísta, de ficar enrolada no calor de outro alguém, de sair de debaixo dessas asas e, finalmente, das noites que passou acordada porque precisava de se sentir sozinha. Não queria que assim fosse, mas teve de se submeter à razão das vozes que a acusavam de não se preocupar o suficiente. Agora, sem ser capaz de perdoar, apenas se quer fechar e permanecer dentro de uma conchinha, qual Náutilo navegando ao sabor da corrente.
Dizem que não vale a pena pensar demasiado em determinado assunto, mas ela discorda. Principalmente quando pensa na beleza de viver. No imprevisto, nos sorrisos, na certeza da imperfeição do mundo irreal, nas cores, nos sabores e cheiros, no toque (até aquele apenas platónico, quiçá onírico).
E, devagar, embalados nestes pensamentos profundos, os olhos dela deixam de sentir o mundo exterior.
Sofia Rainho

Nota: “O Plágio da Letra M” é uma série de textos selecionados que decidi compor no seguimento de algumas ideias soltas, mas conexas no seu íntimo.
2 de abril de 2020 –
Desde cedo que me sinto especial, que me dei conta de que sou diferente das outras pessoas, talvez por mérito próprio, talvez devido ao meio envolvente. Não apenas eu, como continuo a constatar: na minha opinião, não existe definição verídica para “normalidade” (um conceito subjetivo porque todos e cada um vive a sua vida “normal”). Todos sabemos que as normas existem para serem quebradas.
Na minha adolescência, via frequentemente séries televisivas norte-americanas e uma delas, em particular, despertou-me o interesse. Na última temporada, para meu espanto, duas personagens femininas estavam sugestivamente e efetivamente num relacionamento. Espantada com este desvio à chamada “normalidade”, pesquisei a identidade das atrizes e uma delas, descobri, atua também em The L Word, outra série que retrata as intrigas e os casos amorosos de um grupo de pessoas que pertence à comunidade LGBT+, particularmente mulheres. Devo admitir que me despertou curiosidade ver o drama de uma vida em Los Angeles, mas que também a decidi ver para prazer próprio, sozinha, porque incluía cenas escaldantes de atração e de sexo. Foi o meu primeiro contacto direto com a realidade desta minoria, da qual apenas ouvira comentários sussurrados e suspeitos.
Aos 16 anos, tive um sonho sugestivo no qual aparecia eu e uma colega. A partir desse momento, não consegui mais encará-la sem me sentir a suar, a tremer, gaguejando ou a sorrir desmesuradamente sem saber porquê, temendo que me tomassem por maluquinha. Depois dela, outras raparigas que já conhecia ou outras que vim a conhecer me fizeram ter os mesmos sintomas. Contudo, era mais fácil ignorar e continuar a fechar–se e tão mais difícil parar para perceber o que se passava, sem admitir que nunca algum rapaz me atraiu verdadeiramente.
Porque “todas” as raparigas da minha idade queriam ter namorado, sentia que algo nos separava. Tal como quando “saí do armário”, para o qual a “normalidade” me tinha empurrado, assumindo o peso das responsabilidades de ser uma pessoa plena.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 23 de março de 2020 –
O momento do qual mais me arrependo na minha vida foi não te ter beijado – nessa noite, naquela tarde, no outro dia. E, depois, num reconfortante abraço que se seguiu, não ter ficado presa para sempre, enleada em teus braços.
Contigo, a vida é todo um espectro de sentidos e o arco-íris é ilimitado de sabores. Sem ti, é mais difícil ouvir o baque da dor vencendo a razão, capturar o cheiro da liberdade ou ver para além dos resquícios de luz que alimentam a chama que me faz escrever a estas horas.
Quando penso em contar-te como me sinto ao estar perto de ti, relembro quase sempre um episódio recente da minha existência no qual me apaixonei, numa loja de música, por um instrumento. Foram as circunstâncias – ou o destino? – que tornaram aquela determinada loja num espaço particularmente seguro, terno e suave. E é nesse aconchego da memória, qual caixinha com tampa cor de morcego, que te guardo só para mim.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 1 de março de 2020 –
Por que pensas que é cobardia?
Naquela estrada ando sozinho,
perco-me nela – não queria.
Chamo por ti, digo baixinho…
À noite, Douro de encantos,
miro ao luar teus recantos.
E sinto aqui, cantando Fados,
Teu vago cheiro a maresia.
Vindo o dia em te dás,
com teu calor perto do meu,
Respiro o toque dos olhares,
vejo um caminho que é só teu…
Ao longe, sinto a magia
da tua negra companhia –
e mesmo assim não queria:
Perdido em ti eu vivia.
E, depois desse verão,
troquei, cujo pranto traduz,
A minh’alma sem direção,
Pela melodia que reluz…
Sofia Rainho

Porto, 30 de janeiro de 2020 –
Não quero dormir porque não quero sonhar contigo. Não quero acordar e relembrar que existes. Quero, antes, distrair esta minha mente perversa e distorcida com ecrãs e extravagâncias. Quero ter essa liberdade.
Parece demasiado cliché para ser verdade. Não pretendia que isto acontecesse, mas é verdade que me apaixonei por ti. Lembro-me da história de como te conheci e do momento em que senti que, para mim, significas mais do que devias. Porquê? O teu exemplo não me faz melhor pessoa, apenas mais feliz, a tua presença não me torna alguém ambicioso e com objetivos bem definidos, somente dá comigo em doida. E, pela primeira vez, não tenho certezas sobre como (re)agir.
Sinto que sou culpada por este distanciamento, que começou com os meus erros a serem causadores de mudanças nos hábitos que passara a considerar quotidianos desde que te conheci. És mais uma pedra no meu sapato, mas não consigo deixar de pensar em ti. E o que mais me entristece é não estar contigo a todo o momento. És vida para mim.
Depois és assim, imprevisível, intempestiva. Caraças, deixa de ser aliciantemente aditiva. Para de me ignorar para que, assim, me ache contraditória pela interpretação que retiro da tua maneira de ser. Nem sei se quero viver assim. Mas tu mereces mais que o mundo, e o mundo é demasiado para mim.
Sofia Rainho

Porto, 20 de janeiro de 2020 –
Antes, quando eu pensava que a área metropolitana correspondia à área ocupada pelo metro – como meio de transporte – de determinada cidade, não precisava de jogar jogos de arcada no meu smartphone às tantas da noite, com medo do silêncio, para me lembrar que, de facto, existes (para me atormentar). Porque não me respondes? Desenvolvo todo um filme na minha cabeça, um filme deprimente, sem fim, sem início, sem fio condutor…
Agora que admiro a humildade da beleza humana, quero mais que nunca e tenho mesmo uma necessidade de amar, de querer e de precisar de alguém. E preciso de ti.
Não quero morrer sem te dizer que te amo. Por muito que o tente negar, importas mais para mim do que devias. Não sei se é porque me abriste as portas tão rápida e facilmente ou porque tens um charme inigualável; de todas formas, por mais que tente, esquecer-te é tarefa impossível.
Anseio pelo dia em que não te queira beijar… desde aquele momento em que me apercebi, naquela noite fria em que nos via a tornarmo-nos numa família adorável.
Parece-me que me dás inspiração para (sobre)viver quando, na verdade, quando tento escrever ou refletir sobre ti, apenas suspiro e penso naquilo que não fiz.
Quando sei que te aproximas, transformo a minha surpresa de me reconheceres pela surpresa de te ver, porque de cada vez que nos encontramos, sinto-me diferente e com intenções distintas. Atormentas a minha existência depressiva e solitária. Desafias os meus dias apagados e melancólicos.
Se me tornas melhor? Pelo menos contigo sinto-me melhor. E é tudo o que preciso.
Sofia Rainho

Porto, 20 de janeiro de 2020 –
Todos aqueles que perdi – porque conheci e deste mundo se foram – em mim deixaram marcas profundas. Todos me perseguem nas horas mais sombrias da minha existência, seja por um olhar, por uma referência perdida ou por um comentário descurado.
Nesses momentos, sinto saudades de segurar naquela mão suada de quem, nessa hora, tinha um objetivo final, uma meta a atingir: Santiago de Compostela. Aquele santuário cuja oração é a própria viagem e a chegada culmina em todo um caminho percorrido. Esperei demasiados anos para não o fazer e aproveitei a experiência ao máximo, mas nunca esperei conhecer alguém me faria sentir tanta dor e que, depois de partir, aprendi a admirar.
As decisões que ele tomou deixaram-me sem fôlego para viver sossegadamente e cortam-me ainda hoje a respiração. Aquela noite em que soube quis tanto gritar, expelir por qualquer forma aquela frustração e um luto que nunca havia sentido. Foi aí que a minha vida descarrilou, quis sentir o mar, quis que ele me chamasse para junto de si, quis desistir dos planos que sabia frutíferos, quis abandonar qualquer alento que sentisse por batalhas destravadas. Agora, escrevendo isto, quero apenas que esse mar pare de se manifestar nos meus olhos, qual chuva escoando por entre escombros.
Os olhos dela disseram-me tudo. Nunca falámos, mas também nenhuma de nós precisou de o fazer. Estivemos juntas uma semana, depois ela foi e eu fiquei. Fiz-lhe um barco de papel e, na esperança de que nem sequer reparasse em mim, coloquei a seu lado enquanto não olhava, como símbolo da relação e empatia que sentia existir. E ela sabia quem eu era. Vejo agora como tinha uma alma sofrida, irremediavelmente perdida – que poderia ter sido achada? – e que, de novo, a minha presença em nada melhorou a sua existência.
Por favor, perdoem-me.
Sofia Rainho

15 de janeiro de 2020 –
O imaginário desvaneceu-se. Deixei-o arrefecer. Tornou-se um hábito e não uma novidade. Esta rotina assusta-me. Nunca tinha pensado que me podia habituar a isto, a uma tua presença distante, a uma indiferença fingida que me corta a respiração (e estou constipada; portanto, imagina!).
O meu espírito vagueia por entre memórias e registos que me levam a um passado tão próximo como o dia de ontem, tão diferente de um presente que me consome, que me enoja, que rejeito.
Tal como a chuva que cai lá fora me lembra do que perdi, escrever relembra-me daquilo em que não decidi investir. Contudo, não deixas de ocupar os meus pensamentos, enjoas o meu dia-a-dia com a minha procura dos teus pronunciamentos vazios que tanto significam para a minha falta de entendimento. Cada dia me surpreende a tua natural novidade, o teu despreendimento, a tua humanidade.
E, apesar de saber que não serás minha, quero-te comigo sempre. Mas a minha honestidade frequentemente se trata de escapulir. Sempre senti liberdade para falar de tudo o que quiser contigo, mas agora tenho medo de não me ter aberto o suficiente. Só sei uma realidade: não te quero perder; não estou preparada para tal; e não me peças para abdicar de mim, não me quero perder (mais ainda).
Um futuro contigo é a maior incógnita que já tive na vida. É desconcertante, selvagem, carente. Acorda-me de sobressalto e sem aviso prévio. O que queres de mim?
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 8 de janeiro de 2020 –
Foi o que me segredaste quando partiste. É aquilo que ouço no eco de cada dia que passa e que marca com maior profundidade a saudade que tenho de um nós.
Procuro com requinte que as palavras me ajudem a descrever-te, mas não vejo o fim desta jornada. A cabeça lateja com a chegada de um futuro sem clareza nem motivação de espírito.
A água reflete a transparência do teu ser. A sonolência leva-te para a minha inconstante distância. Quem me dera estar na tua roupa, nos teus olhos, no copo que seguras junto a ti, na pedra que se cola no teu sapato e cuja presença carregas sem te aperceberes.
Dizem que a morte acaba com uma vida e não com uma relação, mas pronunciar aquilo que fizeste às nossas é-me insuportável. Não me resigno.
Sinto o erro da cor que envergámos sem saber o que nos esperava, este bater de asas sem sentido.
Sofia Rainho

janeiro de 2020 –
Basta um olhar para me deter.
Basta um sorriso para me afastar.
Basta um gesto para parar.
Basta uma palavra para enrubescer.
Pensas em mim?
Chove e eu choro por dentro.
Queremos sempre aquilo que não temos.
Nem sempre? Muitas vezes? Não.
Nem te vejo
Vejo teus olhos apenas,
Teu cabelo moreno, loiro talvez,
Teus ternos lábios,
Tuas mãos frias, como fria queres ser,
Mas vejo que não és. Porquê?
Se morrer com estes sentimentos, morri entalada.
Mas miro ao futuro.
E o olhar fica perdido no passado.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, janeiro de 2020 –
Começo com a certeza de que a escrita será proveitosa. Aqui me refugio, me sinto segura e livremente comprometida.
És minha fonte de inspiração, de devaneio e de refúgio. À noite, antes de fechar os olhos, sorrio porque o acaso me assegura de que estarás comigo uma noite mais, de que nos meus sonhos te posso voltar a encontrar.
Tenho saudades de sentir as tuas mãos, gélidas e suaves como naquele dia de outono em que esperávamos pelo autocarro, a sós, na paragem. Quero voltar a ver os teus olhos olhando os meus, ouvir-te chamar por mim, pedires-me que fique, que te acompanhe, que esteja contigo, que fique a teu lado.
E, apesar de nunca o ter pronunciado, nem planear pronunciá-lo num futuro próximo, escrever estas palavras ajuda-me a soltar os sentimentos, desafia-me a admiti-los, a organizá-los e a saber que a esperança ainda latente em mim é fruto de ilusões e jogos de luz, de ludibriações que me ensinam filmes e séries e livros e nada da vida real. Nós somos reais. Mas e se este amor for pura imaginação? Falar contigo vai mudar alguma coisa?
Tenho necessidade de escrever. É uma ânsia que se iguala à de viver, apenas tem menos ímpeto, mas igual bravura. Ainda assim, as palavras surgem-se-me ocas, vazias, destronadas de significado e enredo, sem qualquer consideração. Esforço-me por fazer delas obra, aperfeiçoá-las, medi-las, contar o seu valor, mas escapam-se-me por entre dedos incertos. As palavras deveriam ser as minhas melhores amigas! Eternas sujeito poético, é a elas que dedico a minha eterna perdição…
Sofia Rainho

Campanhã, 15 de dezembro de 2019 –
Admiro aqueles que comem gelado no inverno. Admiro quem está perto mas vive longe. Quem defende que estuda para sobreviver. Quem trabalha por fazer valer a sua sorte.
Observo os comboios que passam. Chegam, ficam, e partem. E fica a memória.
Um olhar vale muitas palavras.
– E, quando voltou, trazia dois gelados! Em janeiro, pleno inverno!
Foi este acontecimento que me fez despertar a atenção para o que me contava a minha avó. Muitas vezes me distraía com o que ela dizia, porque doce era a sua voz cheia ainda de melancolia.
– Lá fora era noite cerrada, como habitual, mas a minha viagem ganhou muito mais cor quando começámos a ler os dois, cada qual no seu idioma, e nos encostámos um ao outro. Mas o melhor foi mesmo os olhares que trocámos quando um dos passageiros, adormecido, roncava ao sabor de uma melodia ainda por inventar! Foi estupendo! O que nos rimos!
Aí entendi que voltara a falar do avô e dos loucos anos 20 em que pensara que era lésbica mas que se apaixonou por um simples rapaz estrangeiro, viajante num comboio.
– Nunca soube sequer se falava português, tivemos uma relação de companheiros de viagem, apenas. Mas foi alguém que me marcou bastante, que gostava de ter conhecido melhor. Eu estava numa fase difícil na minha vida, mas pensava que sabia o que queria. [suspiro] Depois, conheci-o.
E daí, a minha avó partiu para os subterfúgios da memória, qual sombra sem noção de tempo que não mais volta atrás. Ali a vi, perto do túnel, esperando ir além do interior da alma que vi nascer nos seus olhos, e cujo reflexo espelhava a beleza que um dia a tornou desapegada da luz estridente. Sem qualquer aviso prévio.
Sofia Rainho

Tábua, 28 de agosto de 2019 –
O vento, do alto da serra, despenteia-lhe os cabelos. A luz do sol brilha através dos parcos ramos de pinheiro que se enraízam ribanceira abaixo. E ela vive rindo-se de espirros de cães. Mas nada disto é primário, senão para terceiro – talvez até quarto – nível.
Sevilha está povoada de tendas e o rio, que separa a margem em que ela escreve da dos pedregulhos, está vividamente fervilhando de entusiasmo pela aventura de conhecer novas gentes e pelo misticismo causado pelo isolamento. E ela sente-se livre.
Cheira o vento que lhe arrepia os finos braços e sente a diferença de odores. A frescura, a autenticidade (quase que disfarçada) e a beleza da tentativa de misturar o urbano num meio natural.
Necessita escrever. Porque ouve passos que não vê, vê sinais que não lhe chegam e porque lhe chega agora o gosto por sentir o valor da solidão – não o quer perder. E porque todas estas palavras estavam destinadas a serem vivas.
Sofia Rainho

agosto de 2019 –
– A formiga procurou um ninho! – exclamou, ao ser ofuscada pela luz.
Aqui, sentada no meio da escuridão (claramente, mas unilateralmente), luminosa, ela observa a lua. Uma lua de Saturno, cujos anéis atormentam. O desgaste leva-a a pensar que o café, não lhe tirando o sono, lhe retira a sanidade.
Mais do que uma dúzia de homens musculados, sem bonés nem protetor solar, mostram-se sempre atarefados, jamais fatigados. Mas o sol não engana.
Passos apressados, poeira que faz espirrar, asneiras que causam um furacão psicologicamente sensível e questões demasiado complicadas para serem esclarecidas. E um – ou dois? – dedos machucados. Mas uma liberdade infinita, a que cheira.
Transborda a dor – dos pés, dos dedos, da garganta e do nariz – e soma-se o transtorno do ânimo, da alma. Será que as pessoas mudam? Eu acho que não. Mas quem sou eu senão um empecilho? Será que arranjo soluções?
Preciso de ajuda – do Caminho.
Sofia Rainho

Portimão, 2 de agosto de 2019 –
Já trabalho há três dias quase sem parar. Hoje, finalmente e, claro, por necessidade, experimentei café. Cheirei, senti o ardor do amargo odor da bebida e deixei-a escaldar na língua, o que não tornou a ação mais confortável. Passadas algumas horas, bebi mais a sério e soube-me a vício.
Não escrevo há bastante tempo e isso afeta-me. De vez em quando, penso em como quero ser escritora mas, depois, a febre arrefece e penso em seguir carreira no desporto ou em gestão de eventos – há tantas possibilidades…
Acredito mesmo que ela me queira ajudar e sinto que somos mais parecidas do que ela mostra que pensa. Não sei bem o que pensar sobre isso.
Preciso de tempo para rezar, para refletir, para deixar de ser egoísta. Olhos pesados, garganta inflamada, pés cansados e sorriso desgastado. Nem consigo, como habitual, imaginar a minha imagem. Deve ser mesmo má.
O que mais preciso é de empatia, de noção, de ação e reação.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 22 de junho de 2019 –
Hoje, o mar está de um sereno e reconfortante azul. Voltei a casa, ao meu lar. Voltou o verão e a praia, o sol e calor. E tudo mais que isso implica: rebentar bolhas, perder o Norte e a paciência, deixar para trás toda uma zona suave e chamativa.
Quero fugir, mais que nunca. Sempre senti o chamamento da caminhada, que me impediu de estar parada; mas, agora, ele é mais forte e difícil de resistir. Uma janela aberta, uma onda selvagem, um precipício sem início. O passado brinca.
Foi no início do Caminho que te conheci. Corpulento, sorridente e despachado, a tua presença marcava, sem dúvidas, quem te conhecesse. E voltei a ver-te, sentindo a honra de contigo estar de novo. Tantos risos trocados, olhares partilhados e, claro, tanto suor e lágrimas, ambos chegados a Santiago. E, mais importante, os abraços. Foste boa parte da força que nos manteve unidos naquela aventura. Companheiro inigualável, a tua imagem irá sempre encher a minha alma.
Quando recebi este caderno, a dor estava fresca. Bastava a menção do teu nome e os olhos marejavam, as pernas fraquejavam, o queixo tremia. Sentia-me fora de mim, observando o mundo pela primeira vez; a minha mente regada por este pressentimento de um final de um ciclo, o da vida.
De que vale aprender se o faço sozinha? De que vale estar se estiver sem mais ninguém? De que vale sorrir se não estás neste mundo? Era tão ingénua ao pensar que a perspetiva de desaparecer nada mudaria, quando, na verdade, a visão entorpece a alma de cada vez que me lembro do que te ocorreu…
Ela me atrai, sei que a procuro todos os dias desde que soube da tua. Nunca mais, desde esse momento, teve sentido esperar pelo rio a descer do vale até à foz. Não ganhou sentido, mas tornou-se real. Porque a ferida não vai sarar facilmente. Quem sabe se alguma vez sarará sequer…
Chamas-me, mas não quero que mais ninguém sofra aquilo que sinto. Entrou na minha cabeça o maior mistério da vida. A minha curiosidade não é pouca, mas respeito a tua decisão; apesar de tudo, é corajosa (mais do que temo alguma vez ser), urge-me a estar atenta, a preocupar-me, a comunicar, não deixando sentimentos por expressar, pensamentos por escrever ou vontades por dizer, e a confiar.
Durmo acordada. Sinto-me, enfim, humana. Por fim, todo o ambiente que transborda de tensão acumulada deixa de me sufocar. Perdi-te e não te vou voltar a achar. Não nesta vida. E não espero pela próxima.
Sofia Rainho

Porto, 16 de junho de 2019 –
A média de idades é superior a 19 e inferior a 60. Conto três cabeças, mas sei que há alguém mais, alguém que nos guia. Pode parecer uma noite “normal” (será que se pode definir algo como normal?) mas, para mim, é o culminar de um dia bestial. Em muitos sentidos.
Reflito bastante numa viagem de autocarro. Ultimamente, penso demasiado no futuro: imagino como seria uma vida sozinha, mas não solitária, se não vivesse dependente da casa dos meus tios durante dez meses seguidos, intercalados com fins de semana perdidos em casa. Seria mais feliz?
Desde que me convidaste a entrar na tua convivência que faço de tudo para não me arrepender. Não fazes nem ideia daquilo que que me marca mais do que um dos teus sorrisos, daquilo que engulo para que possa ser feliz. Quero que saibas que nunca me vou querer despedir de ti e, se o fizer, por favor acaba com o meu engano da forma mais inconsciente. Porque foi dessa forma que te conheci.
Procuro por entre as estações radiofónicas, tão frenética e incessantemente quanto no mundo real, por uma música capaz de refletir aquilo que sinto. A estas horas, só apanho com vozes e oceanos demasiado suaves para saborear em êxtase.
Talvez possa mudar o futuro, mas aquilo que vivi até agora não posso distorcer… a infrutífera busca da melodia romântica com a qual sei identificar-me está prestes a metamorfosear-se-me. Sinto roçar em mim ventos de mudança e o ar cheira a liberdade. Nem o conforto do raio de sol mais quente me fará parar.
Sofia Rainho

Coimbra (?), 4 de fevereiro de 2019 –
O nevoeiro… rodeia-me. A escuridão… chama-me. Não consigo ver-te, mas sinto o teu olhar penetrar-me. Chamas-me sempre que estou sozinha e sonhando as aventuras que poderia ter contigo. Tenho saudades de te ouvir, de sentir o calor da tua alma, o ardor do teu chamamento.
Serás o Desconhecido por muito tempo, talvez por demasiado. Mas a liberdade escolhe-se e conquista-se. Quando chegar a altura de mudar, acolhe-me com o sorriso da tua mansidão e espera que me acerque a ti.
Não sei por quanto tempo poderei conter este impulso e acalmar a necessidade que tenho de ti. Basta um segundo para mudar uma vida. Inúmeras as decisões que se tomam por minuto.
Vivemos a vida dos outros, com eles e para os demais. Como aguentar a pressão…?
Sofia Rainho

Porto, 1 de fevereiro de 2019 –
Estou cansada de ouvir comentários cheios de falta de imaginação, como sejam aquelas questões ou acusações associadas à vida “normal” – mas sem normas que se prezem e se aproveitem para a construção de um melhor mundo. Valorizamos o alheio e aquilo que queremos ter, mas que não precisamos. Conviver diariamente com outros seres humanos é realmente desafiante, quando aquilo que se espera se limita a previsibilidades e horizontes definidos por esperanças vulgares. Como é possível chegarmos a sentir que aquilo que realmente importa é menorizado e ostracizado? Afinal de contas, falar de modos de vida é um tabú largamente ignorado e desvalorizado…
Vivemos “normalizados” e crescemos para ser “normalizantes”, oprimidos e desviados daquilo que realmente importa: estar bem com o próprio e os demais. E na frase anterior vemos, já, o porquê: ao referir-me a como me sinto, tive necessidade de usar adjetivos no plural; como se se vê, palavras com terminações que podem ser comuns a dois géneros, na nossa língua materna, são banalmente – de novo, não creio que haja uma norma que o justifique – finalizadas no masculino.
Como mudar ou fazer-nos/nas ouvido/das? Falar, escrever, deixar um traço, uma herança cultural, algo que possa perdurar ideias no tempo e apele à ação e à revolução. A mim, escrever ajuda-me bastante a interpretar os meus impulsos e as minhas emoções. Só assim arranjo coragem para expor o que sinto e sei que só assim consigo transmitir a necessidade de mudança da visão de (estilo de) vida da multidão.
Que nunca te sintas sozinho na escuridão.
“I learned everyone dies alone. But if you meant something to someone, if you helped someone, or loved someone. If even a single person remembers you, then maybe you never really die. And maybe… this isn’t the end at all.”
– The Machine, “Person of Interest”
Sofia Rainho
(publicado na Frígida, Fanzine do Coletivo Feminista de Letras)

Porto, 12 de dezembro de 2018 –
À tarde
Antes de almoçar, tomo consciência daquilo que vou deixar para trás. Eterna diversão, risadas abafadas e momentos perdidos. Mas o tempo não estica, e “há prioridades”. Ainda penso: “será que vale a pena?”, mas já me decidi e não quero causar problemas. Deixo a comunidade entregue às suas obrigações e dedico-me a tirar o pó das cadeiras da biblioteca.
Trabalho afincadamente, sem saber exatamente para quê. O que interessa na vida são as pessoas, que faço eu fechada numa sala sem falar com aqueles que me rodeiam? Por que não os conheço?
Quando estou cansada, tudo faz sentido; mas, para o mundo cruel do exterior nem tudo o que faço sentido faz. Ainda assim, reconheço que são as casualidades, como um sorriso, uma carícia, um piscar de olho, um “Olá!” aleatório, que apimentam os dissabores do dia-a-dia, tornando possível uma cumplicidade com pessoas, que, de imediato, no nosso mundo, se tornam humanos dignos de referência.
O convívio chama-me da forma mais inesperada: ele aparece esbaforido da longa corrida e desenfreada procura que o trouxe até mim. Sorrio. Pede-me que abandone as quatro paredes e parta para a aventura. Como posso recusar? Agora sei que se lembraram de mim, e isso enche de ternura o meu coração.
Chego e saúdo os meus companheiros. Simbolizo um presente de confiança e isso traz-me mais alegria do que aquela que consigo suportar. Quando pedem que me entregue a todo um grupo que me acolhe, faço-o sem hesitar. Toca-me o olhar dos que me acompanham, e eu toco no deles. Cheiro o humanismo que paira no ar. A minha alma anima-se. Somos um, de novo.
Aprendo que todo o impossível é possível. Recupero a identidade. Já sentia a falta do simbolismo que está representado em pequenos grandes objetos…
De noite
Volto ao mundo real. Transpiro nervosismo. O que faço? Perco-me, de novo, na biblioteca, mas não consigo terminar o trabalho antes de que encerre. Fecho-me na casa de banho, computador no colo. Quem me vir agora pensa que enlouqueci!
Como vou imprimir? Tento aceder a uma fotocopiadora aleatória, sem sucesso, e, no entretanto, perco a carteira. O stress afoga-me e volto ao WC. Encontro umas chaves de algum carro, e procuro alguém que me ajude. Apesar de perturbar uma aula, consigo entregá-las e recuperar os meus bens.
Os meus tios esperam-me. Desisto. Estou preocupada: não consegui imprimir, quanto mais entregar o trabalho. Chove. Os meus olhos perdem-se na escuridão e a minha mente vagueia nas memórias deste dia… “O prazo é até à meia-noite”… “Não se dá o braço a torcer”… “Não há impossíveis”… “Consegue-se sempre dar aquele +1%”…
Volto costas ao Fado e começo a correr que nem uma maluca. “Eu consigo!”… “Só mais um esforço”…
Chego à faculdade e encontro uma alma caridosa, que me atende com toda a atenção possível, e… faço acontecer. Quem estivesse a observar-me atentamente diria que andava perdida (e, efetivamente, perdi-me) ou a treinar para uma maratona. Ando numa roda viva entre enviar o documento, mandar imprimi-lo (raios, não tenho o cartão carregado!), voltar a enviar o documento, e… consigo imprimir! Não quero nem consigo evitar abraçar quem me acompanhou no drama, quem testemunhou a minha vitória!
Fico até às 20h30 na FLUP. Por quê? O tempo é precioso, mas é darmos mais do que o impossível que nos torna irracionalmente vivos. É por isso que tudo vale, sempre, a pena. Dar é receber.
Chego a casa encharcada, e tomo banho. Sinto a terra esquecer o meu corpo e penso naquilo que dá ânimo ao espectro de circunstâncias que colorem a vida.
Pela manhã
Acordo estremunhada. Penso na noite que passou. Recuperei algum do sono, embora já esteja cansada de viver. Ainda estou quente quando abraço a minha tia e lhe atiro um “Bom dia!”. Se há coisa que gosto é de comunicar, seja como for.
Como à pressa porque quero apanhar o autocarro das 7h35, mas já não chego a tempo: eis que vejo a paragem… e o autocarro arranca à minha frente. Espero pelo próximo – parece que se está a tornar habitual – e reflito. O que aconteceu ontem?
Ontem, de manhã, sabia que tinha que entregar um trabalho e estudar para os três testes que vou ter nos próximos três dias. Mas mal terminei o trabalho, quanto mais tive tempo para estudar…
Sei que me comprometi, mas nem sempre posso estar com os meus amigos morcegos. De cada vez que saio da sua companhia não deixo de pensar em como a vida é bela porque é partilhada.
Sorrio. Mas é um sorriso em que se vai denotando uma deceção tremenda pela responsabilidade que é em mim depositada e que nem sempre honro. Ontem, contudo, fiz o melhor que pude, e descurei as prioridades que devo ter em mente.
Apanho o autocarro com a garantia de que tenho lugar na sala se me atrasar demasiado. É o que dá, quando, logo nas primeiras semanas, quase que somos obrigados a conviver… até que essa obrigação se torna uma necessidade… e só nos resta agradecer aos morcegos pela descoberta do mundo, porque, daí para a frente, conseguimos (con)viver em família. É um só vício.
Sofia Rainho

Porto, 2 de dezembro de 2018 –
Possuir-te. Ser a parede em que te encostas, a comida que engoles. Poder tocar-te como te toca a roupa. Invejo o copo que levas à boca quando bebes porque ele é, afinal de contas, mais destemido e confiante do que eu, e porque a sua ação passiva representa algo que nunca poderei fazer sem pensar em consequências desastrosas. Não és assim, eu sei.
Não partiste o meu coração porque, como diz Ricardo Reis, não enlaçámos as mãos, não chegámos a ter contacto íntimo, sequer amigável. Sei que te preocupas comigo e é tudo o que me chega. Mas não sei como retribuir esse teu interesse que me parece desinteressado.
Ao olhar-te, tremo de excitação; se aprecio a tua beleza, não sou capaz de despregar os olhos do teu corpo sem muita força de vontade; se penso em ti, suspiro, porque estou condenada a fazê-lo, apenas, e sem saber nem porquê… Quando recordo os poucos momentos em que estivemos juntas, fica a certeza de que me marcaram e de que sempre os lembrarei, mesmo que nada signifiquem para ti.
Então, que fazer, se nem sequer me sinto capaz de falar quando passas por mim e me olhas? Perto de ti, assola-me a indecisão, a incerteza, a preocupação pelo nervosismo que em mim causas… Sou por ti e para ti o pensamento que tenho, a ilusão em que vivo e o sonho que me orienta. Vivo uma mentira verdadeira, porque em mim há desejo e há paixão, mas não sei se há amor, porque o sentir da minha mente não é correspondido.
Quantas caras tens? Quantas mais terás? Como ultrapassar-te? Sempre saberei, especialmente, quem primeiro foste, mas cada vez mais deixo para trás o passado e admiro o presente, que se me aparece mais intenso, misterioso e intrigante.
Sofia Rainho

Porto, 2 de dezembro de 2018 –
Dois homens entram na carruagem. Um deles, com olhar despreocupado e postura descontraída, acompanha o parceiro, quase como se estivesse noutra dimensão, cansado do teatro da vida que suporta há gerações; está muito calmo. O outro, agitado e com olhar ofegante, gesticula e faz esgazeados ruídos e arranhados sons, numa tentativa de comunicar sem conseguir falar, apontando repetidamente para o colega e esbracejando de tal forma que é impossível duvidar para onde está a olhar quem se encontrar por perto. Vê-se que está chateado com o amigo, por algo de grave que o leva a duvidar da sua lealdade e confiança.
Repetidamente, faz gestos indissociáveis de desprazer e desconforto, lê os lábios do colega, e leva-me refletir em toda a falta de conhecimento que tenho da Língua Gestual Portuguesa e dos marginalizados que sofrem pela falta de sentidos.
Ouvir, tocar, cheirar, saborear, falar. Com estes verbos sentimos e partilhamos sentimentos. Eles guiam a nossa conduta, porque, ao serem estimulados, nos facilitam a convivência. Reflito em como somos todos mudos, surdos, cegos, não temos tato e somos insensíveis aos cheiros, uns mais que outros, é certo, e só quando nos interessa…
Mas não funciona sempre assim. Temos que estar alerta e perceber que cada um interpreta e escolhe a vida que leva num contexto específico e que a vida em sociedade remete precisamente para uma vida em comunidade, o sermos uns para os outros aquilo que cada indivíduo isolado não consegue ser.
Em vez disso, olhamos para o lado, ignoramos e, fruto dessa indiferença, dessa ignorância descabida, tornamo-nos eternos desafiadores da decência humana, daquele sentimento de unidade que não nos une, mas nos separa. Somos insensíveis no que toca à religião, à política, à homossexualidade, à deficiência… Estamos em permanente contacto com o desconhecido e não o sabemos valorizar.
O inespectável é o que dá sabor à vida, torna-a rica e pintada de um extenso espectro de possibilidades. Quando o interesse e o contacto com tantas outras realidades com as quais nos confrontamos é aquilo que verdadeiramente nos molda, é medíocre admitir que aquilo que é tomado por garantido nos satisfaz. Por que, então, nos incomodam situações inesperadas que nos abstraem do nosso mundo? Por que repulsamos o conhecimento exterior, valorizando sempre mais o que já temos?
É suscetível a interpretações, mas a verdade é que a partilha de insatisfeitas palavras, tal como aquele destino que antes de visitar não se sabe que se irá desdobrar em imperdíveis memórias, quando enquadradas e interpretadas num contexto, encobrem metamorfoses autênticas.
Sofia Rainho

Porto, 8 de outubro de 2018 –
Sonho acordada porque penso em TI, na tua maravilhosa existência, aquela que dá sentido à minha. Sim, TU, que lês, sabes bem quem és…
És quem escolhi deixar para trás, és aquele sem abrigo que vejo deitado à porta do centro comercial todas as manhãs, és aquela empregada do bar que mete-se sempre comigo, és aquele condutor do autocarro que me responde com um “bom dia” seco, és aquela professora que não é capaz de dar matéria sem ela parecer secante, és aquela cantora extraordinária que ouço todas as manhãs, és a rapariga de capa e batina por quem me apaixono sempre que vejo, és o rapaz que me surpreende com a cumplicidade de um olhar, és a colega cuja história de vida me inquieta, és o vento que me chama, o sol que me esfria, a pomba que entrou no bar e me fez sorrir com os olhos… Dificultas a minha rotina e desafias os meus hábitos; contigo perco-me, disperso-me e reflito.
Vejo-te em tudo o que faço. És a nova realidade com a qual me deparo e aquela que dá significado ao sonho que comanda a minha vida.
Chama-me egoísta por admitir a necessidade que tenho de estar contigo, prometo não te incomodar.
Sabes (verdadeiramente) quem és?
Obrigada.
Sofia Rainho
(publicado na Revista Alegre – edição nº8, outubro de 2018)

Figueira da Foz, 30 de junho de 2018 –
Querida Xxxxx,
Foste a primeira pessoa por quem verdadeiramente me apaixonei… perdidamente. Perdi-me na tua beleza, na tua simplicidade, na imagem que criei da tua essência, no teu aroma, no teu so(n)riso, no teu charme.
Gostava de ter tido a coragem de te conhecer de verdade. Só temos uma vida e ela é demasiado curta.
Escrevo-te porque tenho medo dos meus sentimentos, daquilo que em mim despertastes e sinto que devo partilhá-lo neste momento em que desejo fugir deste mundo e embarcar numa nova aventura. Não escolhemos quem amamos, apenas quem deixamos para trás.
Posso até ser estranha e, apesar do que muitos pensam, todos temos os nossos problemas. Gosto de basear-me no gosto pela diferença.
Contigo e, apesar de não te aperceberes de tal, descobri que o sentido da vida são os momentos que criamos com seres vivos, e que as nossas escolhas influenciam o significado que atribuímos aos nossos sentidos.
Eu quero apenas mudar o mundo e sei que é com as pessoas que amamos ao nosso lado que é possível arrancar para um futuro maravilhoso.
Gostava de nunca te perder (apesar de nunca te ter encontrado).
Amo-te. Desculpa. Obrigada. Sê feliz!
Da tua medíocre admiradora secreta,
Sofia
PS – Ainda estou a tremer…

Figueira da Foz, 6 de dezembro de 2017 –
Eu tinha quinze anos. Quinze anos completos, é certo, mas quinze anos frágeis e emocionais, inconscientes. Já viajara meio mundo de avião, estava a habituar-me a uma cultura nova, a descobrir aquele que é um mundo novo de espírito uno e de fraternidade escutista, e, apesar de desorientada pelas novidades, estava certa acerca das minhas convicções e dos meus pensamentos.
É certo que esperámos alguns instantes antes de entrar naquele que seria o lugar onde abriria os olhos para o mundo cruel que se nos depara quando tomamos consciência das atrocidades infligidas nos que perdem… Nada me prepararia para o que iria ver e sentir nos momentos seguintes, exceto, talvez, os diversos papéis de programas e panfletos sobre o local; a verdade é que não havia tempo para os ler a todos, na correria que há em eventos coletivos complexos como este. Nesse intervalo de espera relembrei aquilo que já sabia sobre aquela cidade.
Estudara há bem pouco tempo o que aí ocorrera e a minha (in)consciência era capaz de admitir que a viagem que estava prestes a começar pouco influenciaria o meu discernimento. Afinal de contas, era só a consequência de uma guerra mal acabada, gerada por um resquício de resistência, apesar de se tornar numa calamidade humanitária.
Ao entrar no Museu Memorial de Hiroshima, eu não estava ciente do que iria encontrar.
Consigo ainda relembrar as fotografias, as estátuas que reproduziam pessoas a derreter, algumas peças de roupa e objetos que sobreviveram à destruição quase total que atacou o centro da cidade e se prolongou à sua volta, como um terramoto ou qualquer outro desastre natural, apanhando todos desprevenidos. Porquê?
Crianças, idosos, homens, mulheres morreram com esta explosão. Inúmeros testemunhos dão-nos conta da desgraça que se deu naquele sítio, menos de um século passado sobre o acontecimento. Incontáveis vidas as que ficaram sem futuro. Sofrimento… o quanto devem ter sofrido estas pessoas, com mortes dolorosas, privadas de dignidade. E a única salvação dos sobreviventes destroçados foi ter esperança, esperança de conseguir continuar, lutar até ao fim e sobreviver.
Lembro-me de uma menina que, seguindo uma superstição nipónica, dobrou mais de mil “paper cranes” – criaturas em origami – para pedir um desejo: viver.
Justamente para provar a sua perseverante capacidade de recuperação, a nação japonesa de novo ergueu a cidade e todo o mundo pode recordar que “nada se perde, tudo se transforma”.
Após a verdadeira reviravolta nos meus pensamentos, que foi tomando consciência no decorrer da minha existência, apenas posso compreender uma realidade: os fins não justificam os meios.
Agora cabe a nós, gerações vindouras, ter a perceção daquilo que aconteceu; que o destino nunca nos arraste e que os erros do passado possam ensinar a criar um futuro melhor.
Sofia Rainho
(publicado em “Acrobacias com Palavras” – publicação da Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho – de 2017/18, e na Revista Alegre – edição nº11, março de 2019)

Figueira da Foz, 31 de novembro de 2017 –
Sentimento…
Estou sonolenta. Tenho tido grandes dúvidas existenciais. Não sei nada da vida, não sei como viver, mas hei de lá chegar.
Penso que estou febril. Tenho febre de conhecimento, estou cansada de viver. Sinto-me alheia a tudo. Já antes este sentimento tomou conta da minha consciência.
A primeira vez que isso aconteceu, lembro-me bem, foi no estrangeiro, naquela grande viagem que me cativa ainda na memória. Estava, talvez, stressada com o jet lag da coisa e fiquei desorientada com tudo o que se estava a passar. Sentia-me longe, perdida no incrível, mas, ao mesmo tempo, estava consciente do que fazia. É difícil de explicar.
Na verdade, o mundo exterior parece igual, mas o meu interior, em contacto com o meio, parece retrair-se, desvanecer-se em mil e uma irrealidades irrealizáveis. É deixar de pertencer ao corpo, ver-me a mim mesma a tomar consciência do que é o mundo em que vivo.
É um processo demorado, mas que se sente de imediato. E já voltei a senti-lo, em situações inoportunas, mas ainda não aprendi como reagir, nem cheguei a superá-lo… talvez aprenda Contigo.
Estou em transe.
… musical
No entanto, algo me fez despertar.
Automaticamente, ao ouvir um habitual sonido, dei comigo a divagar em melodias, em… música.
O que é a Música senão uma tentativa… emotiva de expor o que vai na alma, inocente da magnitude da beleza que desperta, simples do pensamento que se revela de duvidoso sentido, que inspira raciocínios de inatingível esplendor…?
Música clássica, expressão do sentimento impossível, daquilo que não é possível descrever porque ainda não há palavras que o definam e que possam realmente demonstrar o que provoca.
Surgem diante de mim orquestras, em mil e um trabalhos para pôr a peça a funcionar, para atingir alguma da perfeição pautada pelo organizador de tudo, o compositor, e para seguir, à letra, o maestro.
Afinal, quem “inventou” a música? O intelecto humano? Poder descobrir tal realidade, ser capaz de criar – ou apenas de inspirar a criar – o que mais ninguém, e também toda a gente, compreende…
Mas não.
Nada mais existe, nada mais há a dizer.
Sofia Rainho

Figueira da Foz, 8 de novembro de 2017 –
Querida Sam,
O meu adorado amigo fez uma apresentação oral extraordinária, talvez a melhor que jamais tenha visto. Senti uma ponta de inveja por ele saber tão bem o que quer da vida, de tão radiante que estava ao defender-se de certos olhares e de comentários desinteressantes, mas não pode haver pessoa mais realizada e agradecida por conhecer alguém tão sincero e forte de espírito. E pensar que temos tanto em comum que ele não soube…
Não consigo olhar para ela sem me sentir a derreter. Apetece-me mesmo derreter, ou evaporar, para poder desaparecer e, talvez, conseguir infiltrar-me em todos os recantos do seu ser. Mesmo que não olhe para mim, a sua existência causa em mim o que não consigo ainda descrever. Sinto ao mesmo tempo que não passa tudo de uma fantasia, de uma ilusão, porque tenho a perceção de que ela não pensa o mesmo. É um vazio platónico que tento não alimentar.
Contudo, não estava preparada para sair do móvel. Tentava preparar-me mentalmente, mas é difícil pensar nas reações que terá.
Apenas sei que tenho de saber quem sou e sentir-me bem acerca disso.
Da tua,
Sofia Rainho

Figueira da Foz, março de 2009 –
Mas que dia fabuloso
eu passei com a minha avó
Ela lia-me histórias
do seu livro cheio de pó.
Depois de uma grande tarde
o que é bom é descansar
– Vai buscar a tua manta
para nos aconchegar.
Dormitámos até tarde
sonhámos com a nossa infância
Andávamos a cavalo
e chegámos a Constância.
Vimos livros bem guardados
em estantes bem limpinhas
Imaginámos as histórias
que neles estariam contidas.
Então abrimos um livro
grosso e alto, duro e forte
E exclamámos em coro:
– Temos muita sorte!
Ouvimos um barulho
e de repente acordámos
Fomos até à porta
e o avô encontrámos.
Sofia Rainho
(1º lugar em Poesia, escalão A do Concurso Literário Dr. João de Barros 2009)

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